Em comum, os Estados Unidos e o Iraque têm, pelo menos, crises de identidade. Saddam Hussein, levado ao tribunal de um governo tutelado por tropas de ocupação, gerou, ao identificar-se como ''presidente do Iraque'' diante de um juiz atônito, uma crise na cabeça dos iraquianos. Estes vivem entre dois regimes de terror que não foram escolhidos livremente e que disputam entre si uma legitimidade que não podem ter.
O governo Bush deve ter se arrependido de não ter dado a Saddam o mesmo destino reservado a seus filhos. Foi vítima das suas próprias ilusões de que seria recebido como libertador do povo iraquiano e que este faria do julgamento de Saddam uma festa de coroação de um regime tutelado mas assumido pelo povo como seu. Hoje, se houver testemunhas públicas, várias delas poderão falar do que sofreram no regime de Saddam, ao lado do que sofrem desde que as tropas anglo-saxãs ocuparam o país. Nesse caso, transformarão o processo em um espaço de denúncia contra os dois regimes. Não ficará claro quem julga e quem está a ser julgado.
Do outro lado do mundo, os EUA não vivem uma crise de identidade menor. Desde os atentados de setembro de 2001 que os norte-americanos se perguntam: ''Por que nos odeiam tanto?'' Não faltaram respostas do tipo ''porque nos invejam''. É o tom, entre outros, do conservador Dinesh D'Souza, em seu livro O que há de tão bom na América, do qual um dos capítulos se chama exatamente ''Por que nos odeiam''. Sua resposta é a mencionada. Fareed Zakaria, editor de política da revista Newsweek, Michael Walzer, professor de Ciência Política de Princeton, Robert Kagan, ensaísta do Pentágono, tentam responder, entre tantos outros, à inquietação de um país que considera encarnar o bem no mundo, com a responsabilidade de zelar pelos valores da liberdade, e se sente rejeitado e incompreendido.
A versão mais recente vem de Samuel Huntington, uma aplicação dos seus ''conflitos de civilização'', agora adaptados a um vizinho próximo, os mexicanos. Huntington tinha se notabilizado, em vários momentos, por teses as mais variadas, conforme soprava o vento nos EUA. Terminada a Guerra Fria, quando a elite norte-americana buscava o ''novo inimigo'', inicialmente reciclado como o ''narcotráfico'', Huntington propôs, para esse inimigo que o Império buscava, outras ''civilizações'' - nos antípodas da sua, branca, anglo-saxã, protestante.
No seu recém-publicado Quem somos nós - Os desafios à identidade nacional americana, Huntington localiza nos mexicanos o principal desafio. Situados na imensa fronteira Sul dos EUA (a única entre o Primeiro e o Terceiro mundos), os mexicanos romperiam com os cânones tradicionais dos imigrantes, de que os EUA sempre se orgulharam, dentro do ''cadinho de raças'' que propagam. Mas nesse caso o rompimento não seria apenas com o protestantismo original, mas também com a língua e com o ''espírito empreendedor'' atribuído aos norte-americanos. (Ele trata de não mencionar a questão da raça, mas não consegue esconder seu preconceito.)
Os mexicanos, ao contrário dos exilados cubanos, gostam do seu país e não se mostrariam dispostos a renunciar à sua identidade original. Retornam constantemente ao México e vivem agrupados, constituindo maioria em numerosas regiões dos Estados Unidos. Atentariam contra dois bastiões fundamentais da identidade norte-americana, segundo Huntington: o idioma e a religião.
Além disso, não obedeceriam ao trajeto tradicional dos imigrantes, que entravam por Nova York, recebidos pela Estátua da Liberdade, numa cerimônia de identificação, abraçados pelos valores do novo mundo. Os mexicanos chegam sorrateiramente, pela fronteira Sul, na maioria como clandestinos. Vão e vêm sem respeitar fronteiras, trâmites migratórios e a simbologia de quem chega à maior potência do mundo, que os deseja cooptar.
Tanto iraquianos quanto norte-americanos não sabem muito bem quem são. Estão nos antípodas do mundo - uns pertencem à maior potencia imperial, ocupante do país dos segundos - mas nem eles conseguem encontrar sua identidade. Revelam como nem verdugos nem vítimas, nem ocupantes nem ocupados, nem ''libertadores'' nem ''libertados'' podem se emancipar e encontrar suas identidades em um mundo fundado no poder da força e da violência, em que ninguém consegue responder ao ''quem somos nós'' sem que todos possam se emancipar - solidários e iguais.