A Venezuela é um país ''petroleiro'', isto é, vive, literalmente, do petróleo. O que tem sido uma bendição e também sua perdição. Possui uma das maiores reservas de um combustível que continua a ser estratégico no mundo mas ao mesmo tempo fez com que o país não diversificasse sua estrutura produtiva. A Venezuela importa quase tudo de que necessita, a ponto de, lá, um litro de água mineral custar mais do que um de gasolina.
Nas últimas décadas, as elites venezuelanas promoveram a ''farra do petróleo'', um dos espetáculos de corrupção mais escandalosos de um continente em que eles não faltam. Desde o primeiro governo do socialdemocrata Carlos Andrés Perez, na década de 70, até seu segundo governo, na passagem da década de 80 para a de 90, a corrupção campeou solta, dilapidando a riqueza acumulada pela exportação do petróleo e produzindo uma massa de pobres e despossuídos, excluídos dos direitos e da política como poucas vezes se viu na América Latina. Uma massa que, por sua vez, não encontrava canais de organização no sindicalismo tradicional, dominado por uma aristocracia vinculada à empresa petrolífera - PDVSA - e às centrais sindicais da socialdemocracia e da democracia cristã.
Não estranha então que a reação a essa oligopolização da política e da organização sindical, que inclui o ainda persistente poder totalitário da grande mídia, se produzisse de forma heterodoxa, dado que praticamente todas as forças políticas tradicionais estavam envolvidas nesse processo antidemocrático, permeado de grande corrupção. Quando se havia esgotado o sistema político tradicional, depois de um último governo dos dois partidos tradicionais - após o impeachment, por corrupção, de Carlos Andrés Perez, foi eleito para um novo mandato o democrata cristão Rafael Caldeira, com um governo inócuo -, os dois candidatos favoritos para a Presidência revelavam que apenas quem se situasse fora do bipartidarismo esgotado poderia ganhar a simpatia popular.
A favorita era Irene Saez, ex-Miss Universo (item em que a Venezuela é campeã), ligada aos banqueiros exilados em Miami, depois de sucessivos escândalos, que levaram à estatização dos bancos. Até que Hugo Chávez, militar que havia dirigido uma rebelião fracassada contra o projeto neoliberal de Carlos Andrés Perez, conseguiu catalisar o descontentamento popular e eleger-se presidente da República.
Através de todos os meios legais da democracia liberal, ele convocou uma nova Constituinte, submeteu-se a um novo escrutínio popular por vontade própria e consolidou sua legitimidade institucional. A nova Constituição prevê, entre outros itens inovadores do ponto de vista democrático, a confirmação ou não do mandato, na sua metade, de todos os representantes eleitos, inclusive do presidente da República. Para submetê-los a essa ratificação, deve-se obter 20% de assinaturas do corpo eleitoral.
Foi o que fez a oposição, centrada essencialmente no grande empresariado, na mídia monopolizadora e em setores deslocados pelas políticas de Hugo Chávez, entre eles a burocracia sindical corrupta, excluída da empresa estatal de petróleo. Chegou a esses 20% depois de ter visto fracassada sua tentativa de tirar Chávez do governo por um golpe militar. Está convocado o referendo para o dia 15 de agosto, pela Comissão Nacional Eleitoral que, aos olhos de todos os observadores internacionais - apesar de impugnada pelos opositores -, agiu com lisura e transparência.
Enquanto isso, o governo de Hugo Chávez fez da Venezuela o único país do continente em que os direitos sociais se estendem, nesse caso, a uma massa empobrecida, que nunca havia tido acesso a eles. Apoiado na elevação dos preços do petróleo, coloca-se em prática um plano social que, entre outras coisas, anunciará, em começo de julho, o fim do analfabetismo no país, além de conquistas importantes no campo da saúde pública, da habitação e do saneamento básico.
O tempo contou assim favoravelmente a Hugo Chávez, que, ao contrário do que anuncia a grande mídia - e a imprensa brasileira tem uma cobertura particularmente unilateral do processo venezuelano -, revelou suas tendências democráticas, ao aceitar o referendo e convocar o povo do seu país a participar amplamente dele, comprometendo-se a se submeter a seu resultado.
A Venezuela vê assim um horizonte de resolução dos graves conflitos que acometeram o país. O Brasil está empenhado em que os resultados da consulta de 15 de agosto sejam respeitados e se coloque um marco duradouro de solução aos problemas daquele país, com o qual o nosso tem estreitado laços e projetos comuns. A verdade do conflito venezuelano - entre os grupos oligopolistas tradicionais e as novas camadas populares emergentes - terá seu marco de decisão nessa data, quando a Venezuela substituirá definitivamente a ''farra do petróleo'' pela festa de uma nova democracia com alma social.