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1964: o golpe contra a democracia


O golpe militar de 1964 foi o movimento mais antidemocrático da história brasileira. Uma aliança entre o grande empresariado nacional, as Forças Armadas (FA), a Igreja Católica, a grande mídia, o governo dos EUA e suas grandes corporações, rompeu com a legalidade democrática e com a institucionalidade, derrubou um presidente que exercia constitucionalmente seu mandato e instaurou o regime mais cruel que o país já viveu.

O golpe militar pôs em prática a mais impiedosa repressão a tudo o que significasse democracia na sociedade e no Estado brasileiro, fechando imediatamente todos os sindicatos e partidos políticos, cassando parlamentares e juízes, determinado censura na imprensa, invadindo e incendiando a UNE, prendendo, torturando e assassinando dirigentes políticos democráticos e de movimentos sociais, assim como representantes da intelectualidade e da vida cultural brasileira. A prisão de Gregório Bezerra em Recife, acorrentado, de cuecas e arrastado por um jipe das FA, pelas ruas do Centro da cidade, ficou como a imagem mais significativa do regime que começava a se instalar.

O golpe foi possível pela divulgação das teorias da Guerra Fria, elaboradas pelo governo dos EUA e difundidas pela Escola Superior de Guerra - fundada no fim da Segunda Guerra por dois dos mais importantes próceres da ditadura militar. Golbery do Couto e Silva e Carlos Castelo Branco -, contando com a complacência da quase totalidade da mídia nacional e mobilizando setores conservadores e intolerantes da classe média na ideologia de extrema direita da ''tradição, família e propriedade''. As orações familiares, organizadas por próceres da Igreja Católica, se orientavam pelo lema ''Família que reza unida, permanece única''. As ''marchas da família, com Deus, pela propriedade'' davam o cunho conservador e ditatorial do movimento que se gestava com o farto financiamento de organismos norte-americanos - como os documentos do Senado dos EUA revelaram amplamente.

O liberalismo brasileiro, uma vez mais, se mostrou como o que é: instrumento dos interesses conservadores, manipulado em função de soluções totalitárias. As denúncias de que o governo legalmente constituído de João Goulart (governo ''petebo-castro-comunista'', segundo o chavão dos editoriais de um conservador jornal paulista) estaria preparando uma ''república sindicalista'' atrelada à URSS, que a liberdade - sempre definida como a sua expressão privatizada - religiosa, educacional, de imprensa, de organização, estaria em perigo, serviu exatamente para destruir as liberdades duramente conquistadas no Brasil. Os documentos, jornais e livros da época revelam como tantos dos que hoje se reivindicam o papel de defensores liberais da democracia, promoveram, participaram e/ou apoiaram o golpe militar e todas suas brutais conseqüências repressivas para o povo e a democracia brasileira. O liberalismo, uma vez mais, se revelava um instrumento antidemocrático.

As pesquisas de opinião do Ibope, divulgadas três décadas depois, demonstravam a popularidade do governo Jango, ao contrário do que a quase totalidade da imprensa nacional (a grande exceção foi o jornal Última Hora, imediatamente fechado pelo regime de força instalado em 1964). Gigantesca manipulação da opinião pública tratou de dar legitimidade ao movimento golpista e de esconder o apoio social do governo.

Rompia-se com a democracia e se instalava uma ditadura militar - é bom sempre tratar as coisas pelo seu nome, deixando de lado expressões como ''regime autoritário'', ''governos militares'', assim como deixar de chamar os ditadores, que foram eleitos por seus pares das FA, de presidentes e, sim, de ditadores.

Mas aquele brutal golpe de Estado não se fez apenas como movimento político. Ele foi idealizado e gestado no marco da ''Doutrina de Segurança Nacional'' do Pentágono norte-americano, e serviu para cortar um processo de ascensão das lutas populares e das conquistas sociais e democráticas, em que, pela primeira vez, os trabalhadores do campo se sindicalizavam, a baixa e média oficialidade das FA se politizava, se forjava uma amplia aliança entre os trabalhadores, setores da classe média, estudantes, intelectuais e artistas, que ameaçava a secular dominação das elites tradicionais brasileiras. As FA acabaram sendo instrumento dos grandes interesses econômicos nacionais e internacionais, que cortaram um processo de democratização como o Brasil nunca tinha visto e impuseram a desnacionalização da economia e a elitização de sua economia. As conseqüências são sentidas até hoje, constituindo-se o golpe de 1964 momento de virada repressiva e conservadora chave para entender muitas das mazelas que carregamos 40 anos depois - como analisaremos no artigo da próxima semana.


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[22/MAR/2004]


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