A reunião da OMC não avançou, nos termos que os países globalizadores queriam, porque uma parte dos globalizados se reuniu e resolveu lutar por seus interesses. Os países do Sul são 85% da população do mundo, que repartem mal apenas 15% das riquezas existentes, enquanto os globalizadores - os países do centro do capitalismo - são 15% da população que repartem 86% da riqueza.
Não se poderia avançar no chamado ''livre comércio'', que orienta a OMC, porque vivemos tempos de recessão econômica: tempos de protecionismo, e não de liberalização. Nenhum país está disposto a ceder qualquer fatia do seu mercado, salvo em troca de vantagens ainda maiores. E quando aqueles que tradicionalmente cederam passam a se defender, tudo pára. Felizmente, porque a liberalização comercial acelerou as desigualdades e a miséria no mundo.
A partir de agora, se trata de consolidar a unidade interna do grupo dos 21 e buscar ampliá-lo. Mais importante, porém, é que, duas semanas depois de Cancún, se realizará a 32ª Conferência Geral da Unesco, entre os dias 29 de setembro e 17 de outubro, que vai avançar nas negociações fundamentais sobre a diversidade cultural. A França comanda uma posição que busca afirmar a especificidade dos bens e serviços culturais, com o direito de cada governo de tomar medidas legislativas, regulamentares ou financeiras, para a preservação de seu patrimônio cultural e lingüístico e a favor da necessidade de cooperação com os países do Sul, por exemplo sob a forma de acordos de co-produção cinematográfica ou audiovisual que lhes permitam ter acesso às ajudas nacionais e às redes de divulgação dos países do Norte.
Entre os que se opõem a essa posição, claro, estão os Estados Unidos, liderando um bloco e tendo o apoio da OMC e de seu ''livre comércio'', que não pretende respeitar a particularidade dos bens e serviços culturais. O Brasil se encontra entre os países ''reticentes'', segundo análise de Bernard Cassen no número de setembro do Le Monde Diplomatique. A favor da posição francesa se pronunciaram a Alemanha, o Canadá, a Grécia, o Marrocos, o México e os países francófonos.
Trata-se de uma luta para aprovar um norma internacional que possa ser utilizada pelos governos contra decisões da OMC ou de outros organismos similares. Solicita-se a arbitragem da Corte Internacional de Justiça, de Haia, para dirimir controvérsias. ''Esse dispositivo poderia assim questionar a predominância do direito do comércio, do livre-cambismo sem limites, sobre todos os outros direitos (principalmente sociais, do meio ambiente e culturais), que faz da OMC a ponta-de-lança da globalização neoliberal'', nas palavras de Cassen.
Em princípio, a situação é favorável à posição do respeito à diversidade. A Unesco já adotou, por unanimidade, uma declaração universal sobre a diversidade cultural e seu conselho executivo decidiu, também unanimemente, colocar na ordem do dia da Conferência Geral a questão da oportunidade de aprovar uma resolução nessa direção.
Porém o quadro pode mudar, porque os EUA retornam à Unesco, da qual devem voltar a financiar 25% do orçamento. Os EUA, um dos países mais protecionistas do mundo em matéria cultural (importam apenas 2% de seu ''consumo'' cultural), vão brigar por estender o ''livre comércio'' ao mundo cultural, como se a cultura fosse uma mercadoria como outra qualquer, e abrir assim ainda mais espaço para sua hegemonia midiática no mundo.
O prazo final para a adoção de uma resolução é 2005, mas o clima para essa decisão será constituído a partir de agora. De forma coerente com sua excelente atuação em Cancún, o governo brasileiro terá de abandonar a posição reticente atual e, fortalecendo os espaços para a produção cultural nacional e a diversidade cultural no mundo, somar-se de forma decidida à posição de proteção e democratização da produção e da divulgação cultural no mundo.