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O império e nós

Um alto oficial do exército norte-americano afirmou, logo em seguida à guerra contra o Afeganistão, que felizmente - para eles - os Estados Unidos encontravam gente demente que ousava aceitar o desafio militar de seu país.

É tudo o que eles querem: transferir os conflitos para o plano militar, onde sua superioridade é gigantesca. Foi assim com Saddam Hussein, com Milosevic, com Bin Laden. Esses são os tipos de enfrentamento que convêm ao império, que os incentiva, já que sua estratégia é a de militarizar os conflitos, para buscar decidi-los no plano que mais lhe convém.

Isso ficou muito claro no caso iugoslavo, quando a Europa tentava, nas negociações de Ramboulliet, chegar a um acordo que permitisse uma solução política para o conflito.

Os Estados Unidos nem participavam das negociações e, da mesma forma que no caso do Iraque, se limitavam a críticas céticas sobre a possibilidade de uma saída negociada para o conflito, tratando de apressar os tempos, favorecendo a intervenção militar. Enquanto isso, azeitavam sua máquina de guerra.

Esgotadas as negociações, a voz passou para os EUA, vestidos com os uniformes da Otan - não permitindo sequer que aviadores de outros países tivessem acesso aos planos de combate -, e o massacre recebeu luz verde.

As bravatas de Milosevic se assemelham às de Saddam Hussein e são funcionais à política norte-americana. Edward Said já disse que essas bravatas do ex-presidente do Iraque são altamente prejudiciais à causa árabe, até porque não se assentam na disposição e na capacidade real de combate dos povos em nome dos quais pretendem falar. Ao contrário dos vietnamitas que, vivendo num país muito mais atrasado do que o Iraque, fundaram sua luta em ideais, na organização popular, na mobilização moral do povo, e derrotaram a máquina militar mais poderosa do planeta.

Os golpes mais duros na hegemonia imperial norte-americana não foram dados em Bagdá, Belgrado ou Cabul, nem sequer nos atentados de setembro de 2001 em Nova York e em Washington. Os golpes mais duros nessa hegemonia foram dados em Seattle, em Barcelona, em Gênova, em Londres, em Florença, em Madri, em Roma, em Nova York, nas grandes manifestações do movimento antiglobalização neoliberal e antiguerra. Os grandes golpes no império militar representado pelos EUA são dados em Porto Alegre, nos Foruns Sociais Mundiais, que trabalham para a construção de ''um outro mundo possível'' - mundo que tem que ser não apenas alternativo à mercantilização neoliberal, mas também ao mundo de guerra que o governo norte-americano promove.

Ninguém, nenhuma força social ou política pode, a partir daqui, desconhecer o papel da potência imperial hegemônica no mundo. Ninguém tem mais o direito de se enganar a respeito do que ela é capaz, dos interesses que a movem, da falta de limite de suas ações - em suma, de que se trata do grande inimigo de uma ordem justa, pacífica e solidária para o mundo atual.

A natureza e o papel de cada um - indivíduo, movimento, governo - estarão dados, em grande parte, por sua atitude em relação a essa potência belicista.

Que cada um assuma suas responsabilidades. Que o governo brasileiro se inteire cada vez mais da real relação de forças no plano mundial e suas conseqüências para nosso continente e nossa região. Que o Fórum Social Mundial, se quiser estar à altura das lutas atuais por um outro mundo, incorpore definitivamente a inevitável dimensão política e estratégica das lutas pelo mundo novo. Que quem deseja um mundo de justiça e paz, declare guerra intransigente ao império gestor de guerras e de injustiças.

[13/ABR/2003]

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