Chegamos ao terceiro Fórum Social Mundial - a iniciar-se na próxima quinta-feira, em Porto Alegre. Aquele movimento de resistência ao neoliberalismo, iniciado com o grito dos zapatistas em Chiapas, ganhou corpo com o editorial de Ignácio Ramonet no Le Monde Diplomatique, chamando à luta contra o ''pensamento único'', explodiu em mobilizações populares a partir de Seattle - e em tantas outras localidades - e desembocou em Porto Alegre, nos Foros Sociais Mundiais.
Desde então passou a euforia neoliberal. O capitalismo norte-americano esgotou seu ciclo expansivo e entrou na recessão profunda e prolongada em que se encontra. A América Latina, de mostruário de experiências supostamente bem-sucedidas de aplicação do ''consenso de Washington'', passou a ser um catálogo de crises e a Argentina, de modelo bem-sucedido e extremo dessas políticas, no exemplo mais acabado de seu fracasso. Os presidentes que aplicavam essas políticas - como Menem, Fujimori e FHC -, que se elegiam e reelegiam apoiados nelas, saíram do governo derrotados, e os que os sucedem, se não rompem com suas políticas - como nos casos de Fernando de la Rúa e de Alejandro Toledo -, fracassam rapidamente.
O próprio governo norte-americano deixou de fundar seu discurso no apelo ao consumo, proveniente da aplicação do ''livre comércio'' e do ''livre mercado'', e passou a chamar à ''guerra infinita'' contra o ''terrorismo''. Seus aliados privilegiados deixam de ser os que exibem economias florescentes, para ser os que mais os apóiam nas suas aventuras militares.
O mundo mudou desde Chiapas e mais aceleradamente desde o primeiro Fórum Social Mundial, em janeiro de 2000. Mudou também porque o Fórum surgiu. Porque ele proclamou que ''um outro mundo é possível'', porque reuniu os mais diferentes movimentos e entidades, revelando como coincidem em que ''o mundo não está à venda''. Mudou porque ficou claro que é no Fórum Social Mundial que se discutem e se buscam soluções para os grandes problemas da humanidade no novo século, e não no FMI, na OMC, no Banco Mundial ou no Fórum Econômico de Davos.
Tudo isso coloca maiores responsabilidades no Fórum Social Mundial, porque o esgotamento do neoliberalismo e a crise em que submergiu o mundo provocam uma crise de hegemonia que tem que ser respondida com alternativas concretas e globais, fundadas na solidariedade e não na ganância, na resolução justa e pacífica dos conflitos e não na imposição violenta. Precisamos assim sair deste Fórum com alternativas para os problemas selecionados como centrais pelo Conselho Internacional - instância máxima do Fórum Social Mundial.
Temas como um esquema de comércio mundial alternativo que se contraponha à OMC já na reunião que haverá este ano em Cancun, no México; um projeto de democratização dos grandes meios de comunicação nos planos nacional e internacional; propostas de resolução pacífica e justa dos conflitos bélicos existentes e de democratização das organizações internacionais, a começar pela ONU - são questões a que o Fórum deve dar respostas concretas.
Ao mesmo tempo em que assume esse caráter mais político, o Fórum se internacionaliza, com a constituição do Conselho Internacional, que reúne cerca de 60 redes internacionais, cujas instâncias democraticamente escolhidas - conforme os critérios regionais, de gênero, de etnia, de setores sociais etc. - lhe dão legitimidade e transparência para construir um amplo e heterogêneo consenso do movimento mais extenso e multifacético que a história conheceu. A decisão de fazer o próximo Fórum na Índia corresponde igualmente a esse processo de globalização do conjunto do movimento.
Milhares de pessoas se congregarão em Porto Alegre a partir desta semana, nos distintos eventos que precedem e que se desenvolvem dentro e paralelamente ao Fórum Social Mundial, no mais importante movimento social, cultural e político do mundo. O sentimento de participar de um mundo novo que nasce pôde ser constatado por mim não apenas na alegria e na diversidade que convivem com toda a tolerância e a festividade que um evento como esse provoca, mas também em episódios individuais. No penúltimo dia do Fórum passado, me encontrei com o agora ministro da Justiça, Márcio Thomas Bastos, que chegava ao Fórum. Eu lhe perguntei se ele ia participar de alguma atividade e ele me respondeu: ''Não, eu vim só para estar num lugar como este''. Esse sentimento de pertencer a ''um outro mundo possível'' é que nos anima, em meio a tantas dificuldades, a seguir adiante no movimento que mais esperança traz e que é o espaço mais importante de criação de alternativas ao mundo injusto e violento que não queremos legar a nossos filhos.