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O voto contra a especulação

''Aproveitem a festa, mas fiquem perto da porta''. Com essa frase uma empresa de consultoria norte-americana se dirigia a seus clientes a propósito dos investimentos especulativos nas bolsas latino-americanos, num momento de rara sinceridade. Em outras palavras, ganhem tudo o que possam, mas estejam preparados para zarpar, assim que sentirem algum risco ou que os ganhos já não valerem a pena. Enquanto isso, basta fingir que se vai embora, para pressionar governos que escancaram suas economias ao capital financeiro, pela modalidade escolhida de estabilização monetária, sobre os quais esse capital passou a ter o direito de veto.

O que vivemos hoje, nas vésperas da decisão sobre quem presidirá o Brasil nos próximos quatro anos, é uma dessas fugas que servem para resguardar capital de eventuais taxações, mas também para mostrar o poder que o capital especulativo passou a ter sobre democracias corroídas pela financeirização. E se o povo brasileiro decidir, daqui a uma semana, que quer uma sociedade da produção e do trabalho, dos direitos sociais e da carteira de trabalho, do desenvolvimento com distribuição de renda, da soberania e da identidade cultural, o que acontecerá com esse capital?

No capitalismo, a vontade majoritária da população pode se chocar com a vontade minoritária dos que possuem os grandes capitais, daí o conflito entre capitalismo e democracia. Todos têm um único título de eleitor - banqueiro e desempregado -, mas quem pode mobilizar grandes capitais pode chantagear a vontade majoritária da cidadania. É isso o que embrionariamente estamos vivendo hoje. As eleições por si sós não resolvem a questão do poder na sociedade, mas podem colocá-la, e fazê-lo nos seus devidos termos, deixando claro para todos quem está de cada lado, quem se curva e quem sabota a vontade da maioria do povo.

O que vivemos hoje é a ressaca da imensa farra especulativa do governo FHC/Malan. Ao convencer a maioria dos eleitores, em 1994, de que a estabilidade monetária seria a chave para a retomada do desenvolvimento, para a modernização da economia, para a distribuição de renda, esse governo pôs em prática uma modalidade de estabilidade que não se assentou no crescimento da economia nem na melhoria da infra-estrutura, na qualificação da mão-de-obra, no aumento da pesquisa, na reforma agrária, mas na atração de capitais financeiros pela maior taxa de juros real do mundo. Estava montada a armadilha que fez com que o endividamento público - que seria frontalmente combatido, segundo as promessas de 1994, porque a fonte da inflação - se multiplicasse por mais de 10 vezes. A armadilha que fez com que não houvesse incentivo ao crescimento, a concentração de renda se acentuasse, os investimentos sociais minguassem - em suma, se promovesse a hegemonia do capital financeiro, na sua modalidade especulativa, sobre a economia brasileira. Uma das expressões mais escandalosas disso é o fato de que os especuladores estrangeiros não sejam taxados nos seus investimentos nas bolsas brasileiras, impostos pagos pela cesta básica, pela publicação de livros e por eventos culturais em geral.

A política de FHC/Malan não apenas não conseguiu retomar o desenvolvimento econômico - a década de 80 não foi ''a'' década perdida, mas representou a entrada da economia brasileira num período de baixo crescimento, depois de cinco décadas de crescimento acelerado -, como sequer estabilizou a moeda, como se vê pelos transtornos atuais, que denunciam o fracasso até mesmo desse objetivo central do governo que agora termina, ao qual sacrificou tudo - desenvolvimento econômico, nível de emprego, investimentos sociais, direitos dos trabalhadores, financiamento à cultura.

O que se decidirá no próximo domingo é o destino do Brasil diante do que fizeram com o país na última década. A necessidade não é apenas a de dar fim nessa farra especulativa, mas encontrar as formas de impedir que sigam chantageando os brasileiros mediante as ameaças de fuga de capital, de represálias financeiras, de boicotes externos, de locautes internos. Por isso, quanto mais forte e mais extensa a vontade expressa pelos brasileiros de sair desse cassino econômico em que nos meteram, mais capacidade terá o novo governo de colocar o Brasil nos trilhos de uma economia produtiva, de uma sociedade fundada nos direitos de todos, de uma cultura criativa e democrática. Para tanto, o que se requer não é somente o voto, mas um consenso ativo, mobilizado, consciente, organizado, para que construamos os sujeitos sociais, políticos, culturais que protagonizem, junto com o próximo governo, a construção de um Brasil solidário, humanista, criativo, plural - enfim, de um país democrático.

[29/SET/2002]

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