Uma moeda é forte como reflexo de uma economia forte. O real continua fraco, porque a economia brasileira se enfraqueceu desde 1994, pelos sacrifícios em função de uma visão monetarista da estabilidade.
Nesse sentido, o que significa e o que pode mudar a crise do dólar? Sua força reside na força da economia norte-americana. Assim se manteve o dólar forte ao longo do ciclo expansivo da economia dos Estados Unidos nos anos 90, acumulando e até agudizando, no entanto, seus elementos de fraqueza. Quais são estes? Antes de tudo a transformação da economia norte-americana na direção de uma economia terciária, ao transferir para países com mão-de-obra muito mais barata a produção de mercadorias que, importadas, geraram enormes déficits comerciais e da balança de pagamentos. Sua cobertura foi feita pela atração de capitais para suas bolsas, prometendo estabilidade permanente e crescimento incessante de sua economia. Essa ilusória euforia, por sua vez, levou a um consumo desenfreado e a um endividamento inédito.
Essa combinação supunha que a contrapartida da falta de poupança dos norte-americanos seria sempre a capacidade de poupança dos japoneses - e dos povos de outros países interessados em investir nas bolsas norte-americanas. Enquanto esse mecanismo compensatório funcionou, os EUA puderem financiar seus déficits. O que sucede agora é que o fim do ciclo expansivo gerou, com os escândalos saídos à tona da farra especulativa dos anos 90, desconfianças e a saída de capitais das bolsas dos EUA.
O que isso pode representar? Pode significar que a desregulação financeira, de que os EUA foram o grande ganhador, pode estar chegando a seu final, se se confirmarem esses sintomas de fuga de capitais do até aqui mercado mais seguro do mundo. Enquanto outros países sofriam com a volatibilidade do capital financeiro, os EUA ganhavam, porque a fuga de capitais se dirigia para Nova York. Enquanto houvesse um grande ganhador, nenhuma iniciativa de retorno a formas de regulação do capital financeiro poderia prosperar. O que pode ressurgir agora são mecanismos de controle do capital especulativo, porque a economia hegemônica também pode estar sofrendo um ataque especulativo, provando do seu veneno.
Um novo ciclo de regulação dos capitais financeiros pode alterar significativamente as condições atuais de fragilidade de economias como a argentina e a brasileira, que se beneficiariam, favorecendo uma reciclagem de capitais da esfera especulativa - onde giram 95% dos capitais em movimento no mundo atualmente _ para a produtiva. Outra via é encarnada abertamente pela candidatura de Carlos Menem à Presidência da Argentina: a dolarização, a Alca e recolonização aberta do continente, transformado numa zona livre para as corporações norte-americanas e num paraíso fiscal para lavagem de dinheiro sujo.
O próprio contexto internacional está em rápido processo de mudança. A passagem da economia norte-americana da expansão à retração e suas conseqüências em todo o mundo aumentaram o protecionismo comercial. A crise financeira norte-americana agora aponta para limitar o processo de desregulação financeira. Termina assim o consenso neoliberal e se abre um vazio de projetos hegemônicos. Entre a dolarização e novas formas de regulação se joga o futuro dos nossos países. Os que não souberem responder às novas condições, serão vítimas, de novo, de posições subalternas, como as da grande maioria dos países latino-americanos. Os que souberem romper, apontarão para horizontes novos, renovadores, de políticas pós-neoliberais.
Resta lembrar que os governos que entraram em crise rapidamente no continente - De la Rúa e Duhalde, na Argentina, Vicente Fox, no México, Alejandro Toledo, no Perú, Jorge Battle, no Uruguai - foram vítimas do continuismo das políticas de ajuste fiscal e de estabilidade monetária, e não das tentativas de mudança e de ruptura com as políticas monetaristas. Portanto, os riscos estão nos elementos de continuidade e não nos de ruptura.
O cientista político e sociólogo Emir Sader escreve nesta página aos domingos