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A direita, hoje

Ninguém - ou quase ninguém - se diz de direita hoje, justamente quando o mundo virou para a direita. Deve ser ruim reivindicar a continuidade de personagens como Hitler, Franco, Pinochet, Videla, Reagan e Thatcher. Daí que a direita de hoje se diz de centro. Até mesmo o líder da extrema-direita francesa, Le Pen, afirma que é ''de esquerda no plano social e de direita no plano econômico''.

No entanto a direita está ai - dos Estados Unidos à Áustria, de Portugal à Dinamarca, da Espanha à França, da Itália a Israel, da Inglaterra ao México. Em geral, os de direita se dizem ''de centro'' ou afirmam que ''direita e esquerda não fazem mais sentido''. O que caracteriza a direita hoje?

Sua história mais recente começou com Reagan e Thatcher, que refundaram politicamente o liberalismo. Nesse sentido, em que consistem as políticas de direita?

Na promoção da mercantilização das nossas sociedades, de que tudo se compre e se venda, de que tudo tenha preço, atacando os direitos, transformando-os em bens comprados no mercado. Essa promoção se faz pelo enfraquecimento da regulação e pelo favorecimento dos mecanismos do mercado, contra os direitos sociais e políticos. Caracteriza-se pelo privilégio da estabilidade monetária sobre o desenvolvimento, do capital financeiro em detrimento do capital produtivo, da flexibilidade laboral contra os direitos trabalhistas, pelo privilégio da economia em oposição ao social.

O mundo tal qual o conhecemos foi remodelado - para pior - por essa direita, mesmo quando se disfarçou de centro ou de ''terceira via''. Foi ela que produziu um mundo de desigualdades maiores do que nunca, com insegurança e falta de direito para a grande maioria da humanidade, um mundo sem organismos de direito que o protejam da violência dos mais fortes, um mundo em que o poder do dinheiro tornou-se avassalador, em que a informação é mais manipulada do que nunca, em que o país mais poderoso do planeta se dá o direito de agir como bem entende, sem que nenhum organismo ou grupo de países se oponha de forma firme, sistemática.

É um mundo cada vez mais à imagem e semelhança do que a direita prega. O clima de guerra - de resolução violenta dos conflitos, da Colômbia à Palestina - veio complementar esse cenário.

Um mundo que dispõe de suficientes forças de direita - de governos a partidos, de instituições financeiras a grandes empresas midiáticas -, mas que vê decaírem as forças de esquerda, no momento mesmo em que o movimento de rejeição desse mundo mercantilizado cresce, especialmente desde as manifestações de Seattle. Um movimento que hoje se articula mais em torno de movimentos sociais e civis do que de partidos, mais em torno de reivindicações concretas do que de programas gerais, mais em torno de sentimentos de indignação e de valores morais do que de estratégias políticas.

Mas se a direita tem partidos, estratégia e poder, a esquerda - a nova esquerda - não pode prescindir disso, se quer não apenas resistir, mas lutar para vencer, transformando o mundo na perspectiva do humanismo e da solidariedade. Nessa direção avança o Fórum Social Mundial, que neste fim de semana realiza um seminário em Barcelona para definir sua natureza, suas formas de funcionamento e seu formato futuro - incluído o próximo Fórum, a ser realizado uma vez mais em Porto Alegre. Para construir uma esquerda à altura dos desafios de um mundo triste e violento, construído e reproduzido pela direita.

[28/ABR/2002]

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