O II Fórum Social Mundial, a realizar-se em Porto Alegre na próxima semana, terá na conferência de Noam Chomsky sobre a guerra e a paz no mundo sua abertura política. Essa conferência inicia o projeto ''Um mundo sem guerras é possível'' e será seguida por propostas de paz para os quatro focos de guerra mais graves na atualidade - Palestina, Colômbia, País Vasco e Chiapas. Prêmios Nobel da Paz concluirão a programação com uma mesa-redonda sobre a paz e a guerra no mundo.
Essa iniciativa é a replica do FSM à nova ''guerra fria'', instaurada no mundo a partir de 11 de setembro passado. Ela busca diagnosticar as raízes do mundo no pós-Guerra Fria e, ao mesmo tempo, no marco unipolar de hegemonia norte-americana. Um mundo que, ao superar a bipolaridade anterior, prometia ser um mundo em que os conflitos seriam resolvidos num marco de harmonia e de entendimento.
No entanto, no mesmo clima em que se fechou o século passado, a primeira década deste está marcada por guerras ou por soluções violentas dos conflitos existentes. Essas guerras têm tido nos Estados Unidos - única superpotência - seu protagonista maior, como sintoma suficiente de que a Pax Americana tem representado uma elevação dos graus de conflito e de insegurança no mundo.
Esse fracasso é correlato ao esgotamento da ordem econômica neoliberal e introduz a humanidade numa zona de turbulência. No momento atual, a inexistência de instâncias de intermediação para a tentativa de resolução pacífica dos focos de guerra revela ao mesmo tempo o esgotamento das Nações Unidas - fritadas em fogo lento pelas iniciativas de guerra dos EUA, que desconhecem cada vez mais a ONU - e a renúncia da Europa a desempenhar qualquer tipo de papel relativamente autônomo e de intermediação nesses conflitos.
O próprio golpe midiático do último Fórum de Davos, no ano passado, em que Arafat e Shimon Peres deixaram por 15 segundos as metralhadoras e tiraram fotos para a grande imprensa, num arremedo de negociação de paz, revela a que ficaram reduzidas a capacidade e a disposição negociadoras da Pax Americana. A mudança de atitude do governo Bush diante da Palestina demonstra igualmente a que ficou reduzida a política norte-americana na nova ''guerra fria'': quando acreditou que o reconhecimento do direito à existência do Estado palestino o favoreceria no combate contra aquele que erigiu como seu inimigo fundamental - o ''terrorismo islâmico'' -, pronunciou-se nessa direção. Quando passou a acreditar que os B-52 resolveriam a questão, favorece a pior ofensiva israelense contra a Palestina, encampando a classificação de Arafat como um outro Bin Laden, sequer recebendo-o na Assembléia Geral da ONU.
A postura do Fórum Social Mundial de Porto Alegre é radicalmente diferente. ''Um mundo sem guerras'' se iniciará com um diagnóstico das causas da persistência das guerras no mundo contemporâneo, em todos os seus aspectos. Antes de tudo, como instrumento de dominação imperial dos EUA, através da militarização dos conflitos, plano em que se exerce de forma mais aberta sua superioridade. Em segundo lugar, como mecanismo anticíclico, pelo qual se tenta reativar uma economia em recessão. Em terceiro lugar, como canal de exportação da indústria de armamentos, inclusive no plano ilegal. E ainda, como canal de utilização dos ''paraísos fiscais'' para limpeza das fortunas obtidas com o comércio clandestino de armamento. Na sua globalidade, como instrumento de afirmação da hegemonia imperial dos EUA no mundo contemporâneo.
De um diagnóstico que tome as guerras pela sua raiz é que se podem deduzir soluções para um mundo sem guerras, como as propostas que serão apresentadas esta semana em Porto Alegre. Confirma-se assim que os grandes temas da humanidade na entrada do novo século são abordados em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial, e não no Fórum Econômico, de Davos ou de onde quer que ainda venha a sobreviver à sua morte.
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