Planos haviam sido feitos: talvez Nova Iorque no outono, talvez Nordeste no verão, o filho que talvez fosse estudar fora do Brasil, talvez comprar um carro novo, essas coisas. E agora?
É bom fazer planos e é até difícil viver sem eles, mas no momento está complicado. Em qualquer lugar em que se esteja não dá para desligar da tomada: afinal, a qualquer momento o teto pode cair, o prédio desabar, o mundo acabar.
Gente que passava a vida se queixando de ser insegura está começando a saber o que é a verdadeira insegurança - a da vida real. Que saudade do tempo em que esses pensamentos eram considerados paranóicos. Só mesmo um choque para perceber como era boa a vida no tempo em que os problemas eram apenas imaginários e neuróticos - moleza pura. Agora, se você disser a seu analista que está com medo, pode ouvir como resposta um ''tem toda razão; eu também''. Para quem apelar?
Os valores estão mudando muito rapidamente. Ter um apartamento em Nova Iorque não é mais o sonho de consumo dos ricos, e quem tem um se apavora só de pensar no que teria acontecido se o endereço fosse na ponta da ilha. Segurança é fundamental, das relações afetivas e profissionais aos tijolos com que sua casa foi feita. É necessário ter a certeza - ou pelo menos a ilusão da - de que ela não vai desabar nas próximas horas. Mas que certeza? E se os terroristas escolherem seu país, sua cidade, o prédio onde você mora como próximo alvo? E por que não? Quem garante? Como fazia sucesso quem dizia, nas mesas dos bares, que gostava de viver perigosamente. Fazia - não faz mais.
No momento, você tem dois caminhos pela frente. O primeiro é o do baixo astral total; para isso, razões é que não faltam. Para sair dele é preciso pensar no futuro e fazer planos.
Planos? É, planos. Pense em deixar a cidade grande e ir viver no interior, numa casinha pequena onde nenhum terrorista jamais pensará em chegar, por total falta de interesse. Abra mão de ler os jornais, de ver televisão, de saber o que se passa nesse insensato mundo. Dedique-se à natureza, plante flores, crie galinhas e procure ser feliz mesmo sabendo que nunca mais na vida vai ver Nova Iorque e Paris. Admita: não é a vida com que você sonhou, mas como tudo é, sempre, uma questão de adaptação - o que se faz a vida toda -, mais uma, menos uma, tanto faz.
Tente levantar o astral e pense nas lições que pode tirar dos últimos acontecimentos; é difícil, mas tente.
Aprendemos a viver lutando sempre, furiosamente, pela tal da segurança. Era preciso se matar para ter um apartamento próprio, casar no papel para ter certeza sei lá de que, ter uma poupança para enfrentar a velhice com tranqüilidade, ter bens para deixar para os filhos. Agora, responda: o que você não daria por uma boa noite de sono, aquele sono despreocupado dos que estão em paz com a sua consciência? Faz-me rir: a essa altura do campeonato, o que interessam coisas como consciência? Nada.
Quem tem coragem de achar alguma coisa, de uma semana para cá? Só se fala em terrorismo, analistas políticos e carros militares na 5ª Avenida, e não se sai da frente da televisão - isso o dia inteiro. A realidade está mudando muito depressa, e aquela coisa de achar que nenhum dia é igual ao outro, que era tão legal, está virando um pesadelo.
Que sonho seria viver num tédio total, com um marido que chegasse todo dia à mesma hora contando as mais tediosas histórias do trabalho, com dias que custassem a passar e a melancolia das mulheres que sabem que nada vai acontecer, que o futuro já está traçado, e que a única novidade de cada dia é saber se vai chover ou vai fazer sol. Quando pensa no tempo que perdeu sonhando com uma vida de aventuras, cheia de emoções, sem nunca saber como seria o amanhã.
Sempre se ouviu falar muito de viver cada dia como se ele fosse único, talvez o último. Era bonito - mesmo que fosse apenas um charme - dizer com muito atrevimento, ousadia e alegria, que vivia o dia-a-dia.
O futuro era mais ou menos previsível, e tudo era tão fácil que se tinha opiniões sobre tudo e até se respondia, quando alguém perguntava alguma coisa.
Hoje, qualquer que seja a pergunta, a resposta é sempre a mesma: não sei.
Isso, quando se responde.