Antes mesmo de o nosso país ser uma nação, já era fonte de enriquecimento fácil pra os que vinham aqui apenas fazer fortuna. Pau-brasil, ouro, pedras preciosas, enfim, aquelas coisinhas básicas em busca das quais se enfrentavam oceanos, furacões, monções e calmarias.
No período colonial, o contrabando acontecia por meio dos nativos, que davam uma mãozinha aos estrangeiros em troca de modestos espelhinhos. Hoje os nativos da Amazônia contribuem com os Estados Unidos devastando a nossa mata em conchavo com seus supostos protetores do Ibama, mirando-se nos antigos espelhinhos ancestrais...
Durante o período imperial, o contrabando passou a ser oficializado e praticado por nobres e ministros, que privilegiavam parentes e amigos (olha que isso faz tempo, hein, gente). Depois, com o advento da República, as coisas mudaram pra pior. Assim como o governo Lula, a Velha República fez um pacto com os ''coronéis'' da época, ou seja, os manda-chuvas locais, donos da terra em geral, grupo do qual a maioria dos políticos passou a fazer parte ou almejar fazer.
Comecei a ler sobre a história do Brasil e, entre um capítulo de Náufragos, traficantes e degredados, do Eduardo Bueno, um artigo do jornalista Carlos Priess e a CPI dos Correios, na TV, minha mente ficou tão confusa que, quando ouvi um comercial de Eu, robô, o filme, achei que era mais um índio ou japonês que tivesse afanado o povo brasileiro. Desde Getúlio o lema da moralização foi bandeira permanente que prosseguiu com Juscelino e Jânio, e nada aconteceu, por absoluta falta de determinação de dar um fim à corrupção (aquela virada na história com que todo mundo sonhou, lembram?).
Durante a ditadura militar foi prometido que se prenderia e arrebentaria com corruptos e subversivos, assim mesmo, tudo colocado no mesmo saco. Prenderam, torturaram e exilaram os subversivos, mas os corruptos ainda estão por aí, e o singular nessa história de reformas políticas é que ela desencava pessoas, como se fossem atores para o próximo filme. Por exemplo, quem representou Judas numa antiga película representará Jesus agora. Quando vi o nome do Abi Ackel, em cartaz atualmente fazendo o papel de bom, achei que estava delirando. Não era ele que vendia passaportes falsos?
Abafa o caso, não se toca mais nesse assunto. Vivemos sempre sob o comando de ditaduras que nos impõem e mostram na mídia o que acham que devemos saber. Getúlio, a grande esperança de mudança, abafou tortura, corrupção etc. Tancredo, outra luz no fim do túnel, morreu ninguém sabe muito bem como nem quando, fingiu-se para o povo que ele estava vivo. Depois vieram o caçador de marajás e PC Farias (aquele que foi morto por amor, lembram disso?). Claro, PC tinha o tipo escrito de um grande sedutor... Já se pensa até em Brad Pitt pra fazer o seu papel, representando um homem de bem, naturalmente. Aí veio o Fernando Henrique e abafaram os casos Sivam, a ''privataria'', a orquestração de Severino Cavalcanti para a Câmara dos Deputados e outros conchavos (segundo Carlos Priess).
E então cada vez mais se esperou pelo Lula, como aquele que iria finalmente transformar o país, o salvador da pátria, que iria nos encher de auto-estima, dando-nos o direito de nos ufanar do nosso país, como se orgulhava dele o Conde Afonso Celso, autor do livro Por que me ufano do meu país. ''Foi belo o quinhão que nos coube'', diz o autor. ''Outros povos apenas avantajam ao nosso naquilo que a idade secular lhes conquistou. O Brasil poderá tornar-se o que eles são, eles nunca serão o que é o Brasil, que sendo apenas uma aurora chegará ao calor do meio-dia, se não nos alertarmos para os dois perigos que lhes espreitam: maus governos e instituições incompatíveis com sua índole.''
Fico torcendo para que tenha chegado o meio-dia, que, embora não tenha trazido a evolução da consciência, trouxe ao menos a da tecnologia, que não deixa mais nenhum caso ser abafado. E que o governo Lula tenha ao menos servido pra transformar esse velho quadro, limpando a área poluída há 500 anos para que o milagre do renascimento finalmente aconteça.