Chego em casa tarde da noite e me espanto com um carro de bombeiros defronte ao prédio ao lado, com o seu alerta estridente, homens fardados subindo pela portaria. Fico assustada e pergunto a um deles o que houve no edifício.
- ''Pobrema'' de captura - respondeu ele, muito apressado, com uma rede na mão.
Subiram os três homens e eu fiquei embaixo pra ver o que acontecia, pensando se aquilo seria um novo flagrante de mensalão ou de ''mala direta'', de dinheiro vivo, se ali estaria escondido um depósito da Daslu, se os traficantes teriam descido o Dona Marta, até que daí a uns minutos voltam os bombeiros segurando a rede. Olhei de perto e demorei a acreditar. Era um filhote de coruja! Uma coruja furibunda dentro da rede, de olhar que rogava pragas aos que a examinavam de longe.
- Uma coruja? - perguntei, incrédula.
Por que teriam prendido um pobre filhote de coruja com tanta eficiência, com tanta gente pra prender por aí dando sopa? Se ainda fosse um papagaio que pudesse dedurar alguém do PT, um tucano vingativo, mas uma corujinha preta e branca? O bombeiro explicou que ela estava em cima da geladeira da dona do apartamento 301 e que unhava e bicava quando a mulher se aproximava.
Poxa, se fosse um pingüim sem-teto procurando uma geladeira... Mas uma corujinha perdida? Olhei pra ela, que me fez uma careta. Expliquei aos bombeiros que a minha casa tinha uma enorme mangueira centenária, da qual a corujinha podia gostar. Ela me olhou com desdém. Está mais habituada às florestas do Walt Disney, cheias de fadas e duendes.
O bombeiro disse que a levaria pra sua casa, cujo jardim era grande e cheio de árvores. Deixei a coruja pra lá. Ingrata! E entrei em casa, depois de estacionar o carro. Minha secretária eletrônica piscava sem parar, já que eu esquecera o celular, pra variar... Liguei a máquina e ouvi a voz de minha amiga contando que seu marido tinha se atirado pela janela. ''Gente!'', pensei, ''é hoje!'' Será que ele está implicado em alguma lavagem de dinheiro? Com aquela cadeia de lavanderias que o casal tem... Sempre achei esquisito uma pessoa gostar de possuir lavanderias... Liguei pra minha amiga e ela estava dormindo ao lado do marido ''suicidado''.
- Ué... - exclamei... - Mas ele não tinha se atirado pela janela?
- Tinha - disse ela bem baixinho. - Mas voltou.
- Do além? - perguntei.
Ela me avisou que mudaria de telefone pra não acordá-lo, que ele estava muito nervoso. E então me disse que depois de uma bruta discussão no café da manhã, o marido teria dado um grito de ''basta!'' e se atirado pela janela da sala. A empregada, que servia a mesa, foi tirando o avental e dizendo:
- Bem... Acho que a senhora não vai mais precisar de mim hoje...
O filho de 6 anos pediu:
- Mãe, passa a manteiga?
E aí o marido botou uma perna no parapeito, depois a outra, e pulou pra dentro de casa outra vez. Tinha caído num andaime de obras no andar debaixo. Então a mulher pensou:
- Ai, meu Deus! Vai começar tudo outra vez... - E passou a manteiga ao filho pequeno.
Achei que duas histórias esquisitas na mesma noite era demais pra minha cabeça. E, apesar da psicanálise moderna aconselhar mais Platão e menos Prozac, tomei um Lexotan, que ninguém é de ferro...