
Uma semana num hotel fora do mundo, tipo Truman Show, dentro de um cenário fantástico e pessoas educadíssimas dando bom-dia, boa-tarde, boa-noite, e a gente fica pensando que o mundo é assim. Hotel é uma invenção dos deuses pra nos deixar entre parênteses, num intervalo mágico da batalha contínua. O sonho de consumo da minha irmã é passar um fim de semana no Copacabana Palace pra passar o caderninho de telefones a limpo. Caderninho caro... Mas entendo perfeitamente. Quem é que pode passar alguma coisa a limpo em casa, com todos os compromissos que a gente tem? Nem roupa mais se passa! Francamente, tiro o jeans da corda, visto e saio. A empregada, horrorizada, pergunta se eu vou sair assim. Eu grito da porta que ''lavou, tá limpo'' e corro, atrasadíssima pra pegar o carro pra fazer não sei o quê, não sei onde. Um dia comi até o congelado do Sabor de Pecado feito sorvete. A quiche lorraine tipo picolé com salada. Hotel já dá vontade de não fazer nada, na Bahia então... Eu me lembrei da Anecy Rocha, que dizia que na fazenda dos pais dela as pessoas tinham tanta preguiça que um caboclo caiu do cavalo, fizeram tudo pra levá-lo ao médico, na cidade, e ele respondeu:
- Tô bem assim...
Virou pro lado e morreu.
Um dia fui ao supermercado em Recife possuída por uma pressa carioca.
Depois de uma fila enorme que me impacientou terrivelmente, sei lá por quê, pois não tinha nada pra fazer a não ser me divertir, tive de esperar uma longa conversa entre a caixa da minha fila e a caixa ao lado, que, com minhas compras na mão, discutiam a folga de uma terceira.
- Ó, Marileide, você sabe quem é que vai render Marivalda às três horas?
- Sei, não, Luzimar, acho que é Rita.
- Mas Rita já não rendeu Marivalda anteontem, oxente?
E a conversa se arrastava sobre o tema, a fila esperando parada, ninguém dizendo nada. Só eu estressada. Então comecei a fazer uma meditação.
- Om... Om... Om...
Acho que aquilo foi dando um sono nas pessoas que não ouvi mais um som. Quando ''acordei'', apressada, elas ainda discutiam a rendição de Marivalda.
- Num é justo, Luzimar, Rita não é empregada de Marileide...
Então peguei meu livro e li um bom capítulo d'O sol como bandeira, do Eduardo Garcia, uma espécie de roadie livro onde a personagem também vai pro Nordeste da era hippie e, em vez de reagir ao tempo específico dos habitantes do lugar, acaba agindo de acordo com eles. Pensei muito nessa história de reagir. Que mania que a gente tem! Ninguém é feliz reagindo, mas agindo! O livro é maravilhoso e fala dos anos 60, de política, desbunde, ácido... Como se agia, meu Deus! Em todos os sentidos!
E por falar em política e reação, chego ao Rio, abro o jornal e me inteiro do caos em que o Brasil se encontra. E eu lá, em Itaparica, em pleno Truman Show, completamente ultrapassada, ouvindo reggae na piscina sem saber que agora o must é ouvir Roberto (não é o Rei, não, gente! mas o Jefferson!) cantar a Valsa do Delúbio azul.
Ih, sei não... Tá feia a coisa.
''Ai, que saudade eu tenho da Bahia,
ai, se eu escutasse o que mamãe dizia...''