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A testemunha de uma história doméstica
[20/MAI/2005]
É um banquinho de madeira escura, pequeno, e por ser pequeno me identificava com ele quando eu era criança. Subia nele pra atender ao telefone, na copa, no tempo em que os telefones eram pregados na parede, as casas tinham copa e tudo era feito e adequado pra gente grande. O banquinho me inseria no contexto dos adultos, fazendo-me crescer de tamanho e de importância. Ouvira dizer que pertencera a minha mãe e por causa disso ela o sacramentou (segundo Leonardo Boff), entrevendo nele não o objeto representado exteriormente, mas, intrinsecamente, vislumbrando a sua infância ''através do nexo misterioso que liga os fatos''. Cronologicamente atemporal nos relógios-armários ou nos digitais, o banquinho de madeira transcende a hora. Ajudou minha mãe a descobrir o mundo através da leitura do Tesouro da juventude, me amparou nos deveres de casa e sustentou minha filha quando vestia e amamentava as bonecas. Hoje serve ao meu neto, que se senta nele pra desenhar super-heróis em cima da mesinha.
É das poucas coisas que me acompanham entre as modas e mudanças da vida. Não me lembro de não tê-lo visto em minhas casas, situado em alguma parte delas, tornando-se parte de mim também. Só não sabia que, ao contrário do que eu pensava, existe muito antes da infância de minha mãe e foi construído por meu bisavô, que tinha como hobby a carpintaria. Foi abrindo o livro de memórias do meu avô, Gastão Penalva (que também foi escritor e cronista do Jornal do Brasil, provando que a vida é mesmo um diagrama composto por círculos e quadrados), que encontrei a descrição do banquinho: ''Dentre os móveis da autoria do meu pai, ficou-me na lembrança um banquinho de dois pés, fabricado expressamente para mim, onde eu, todas as tardes, me assentava com meu bandolim, acompanhando-o ao violão.''
Por coincidência também, foi nele que, sentada como João Gilberto, tirei as primeiras canções desafinadas em acordes dissonantes ao violão, e mostrava orgulhosa ao meu pai, que as acompanhava ao piano. Muito me surpreendeu saber que meu bisavô Ernesto de Souza, além de ser o autor do xarope e do versinho do Rhum Creosotado (apesar de este último, não sei por que cargas d'água, vir sendo ultimamente atribuído a Bastos Tigre), tinha inventado também o banquinho, muito mais velho e sacramental, portanto, do que eu podia imaginar, servindo de cadeira extra nos saraus que aconteciam na chácara do meu bisavô, no Andaraí, entre as árvores frondosas, diante do palco improvisado e de freqüentadores famosos como Arthur Azevedo e Chiquinha Gonzaga.
Ernesto de Souza era farmacêutico além de poeta, músico e teatrólogo, e desde que nasci conheço o versinho que compôs pro Rhum, que ouvia pelo boca a boca na família, lia nos bondes, ouvia na Rádio Nacional, no programa do Alvarenga e Ranchinho. Mais tarde, na sala de música lá de casa, vi-o ser registrado por um dos primeiros gravadores, cujo fio de metal escorria vagarosamente pelo tapete formando novas mandalas.
Que me desculpe Bastos Tigre, mas foi meu bisavô Ernesto de Souza, o primeiro Washington Olivetto do seu tempo, que transformou em mídia o versinho de sua autoria pro xarope que ele mesmo inventou:
Veja, ilustre passageiro,
o belo tipo faceiro
que o senhor tem a seu lado.
No entretanto, acredite,
quase morreu de bronquite
salvou-o o Rhum Creosotado!
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