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Jacaré: um verdadeiro presente de grego


Chegou uma hora em que o jacaré ficou grande demais pra morar na banheira. Tinha chegado do tamanho de uma lagartixa lá em casa, o presente de grego que meu tio Jorginho nos deu, a mim e a minha irmã, pra gozar o meu pai.

Imediatamente o Seixas tornou-se celebridade em Botafogo, tal como, hoje em dia, a capivara da Lagoa. Desfiles de crianças faziam fila no banheiro pra ver o jacaré. As meninas Santos Dumont iam visitá-lo sozinhas; as Pareto, com a babá; e Heloisa, com seu inseparável cachorrinho Benedito, um Lulu muito fresco, de lacinho no pescoço, que chegava dando trabalho ao jardineiro que tinha de prender os pastores alemães pra que o cachorro não virasse churrasquinho. Mamãe se queixava de que não podia andar pela casa à vontade, com tanta visita, e a arrumadeira fazia tromba pra bagunça que as crianças deixavam espalhada, tal papel de bala da Kopenhagen e papel de Chica-bom.

Mas um dia chegou uma amiga de vovó, da Bélgica, pra se hospedar lá em casa, e quase infartou com o jacaré, que a essa altura já estava parecendo uma bolsa. Foi quando papai, de saco cheio do bicho, resolveu doá-lo ao Jardim Zoológico, apesar dos protestos das crianças que urravam em uníssono, lideradas por Valdéia, sobrinha da cozinheira.

- Deixa o Seixas ficar, papai, tão bonitinho... - chorava minha irmã.

- Nunca fez mal a ninguém... - soluçava eu.

- Tudo por causa daquela megera gringa! - atiçava Valdéia no ouvido da gente.

- Por que não a mandavam de volta para Bélgica, em vez de ir o Seixas pro Jardim Zoológico? - perguntava minha irmã.

- Sem coração! - acusava a meninada à pobre senhora estrangeira, o coração aos saltos, sentada estrategicamente na ponta da cadeira, prestes a sair correndo daquela gravura de Debret retratando os trópicos.

Papai argumentou que banheira e tapete persa não eram lugar de jacaré, o qual se sentiria muito mais feliz num simulacro do seu habitat, junto aos seus semelhantes. E finalmente acalmou a garotada prometendo levar-nos sempre para visitá-lo no Zoológico. O jardineiro português, que não gostava do Seixas porque lhe dava trabalho a toda hora, pra prender e soltar os cachorros da casa, prontificou-se a levá-lo. Então papai nos contou dos amigos que estariam esperando por ele e do quanto ele seria feliz dentro de um verdadeiro lago, perto dos seus. Suspendemos o berreiro por alguns momentos até que papai saiu da sala acompanhado do jardineiro que levava o Seixas no colo. Foi quando Valdéia, possuída por um capeta ''dublou'' o filhote de crocodilo que partia, cantando a Valsa do adeus. A criançada retomou a gritaria. Seu Manoel, o jardineiro, perdeu a paciência e colocou o Seixas numa caixa de sapatos DNB (Do Nosso Brasil) e bateu a porta chamando o primeiro lotação. Sentou-se junto à janela e acomodou a caixa de sapatos no colo. O lotação disparou pela Voluntários entortando os passageiros na curva e fazendo cair a caixa de sapatos no chão. Assustado, Seu Manoel agarrou a caixa e só então se informou com o passageiro ao lado que o lotação não iria pra São Cristóvão. Então ele saltou na praia de Botafogo em frente à farmácia Moura Brasil. E defronte aquele olho enorme com duas perninhas que anunciava o colírio, sacudiu a caixa de papelão ao pé do ouvido sem ouvir nenhum som. Sacudiu-a outra vez, debalde. Desconfiado, abriu a caixa e constatou que ela estava vazia. Gritou então pro lotação que se afastara:

- Pára que aí dentro tem um jacaré!

- Jacaré? - perguntou, debochado, o motorista. - Agora conta uma de papagaio! - fazendo os passageiros gargalharem.

Então Seu Manoel, pra provar a existência do bicho, mostrou a caixa sem nada, fazendo a mímica do jacaré perdido. Foi o suficiente pro lotação dar uma brusca freada à sua frente. As mulheres gritavam segurando as saias suspensas nos quadris, em cima dos bancos, os homens desciam, furiosos, se armando de pedras e paus em direção ao jardineiro, enquanto o Seixas, assustado, jazia no fundo do ônibus ameaçando quem se aproximasse com a boca aberta e o olho arregalado. Seu Manoel saiu correndo e se escondeu na Sears até a turba violenta ser dispersada pelo guarda. Então ele telefonou pro papai, que abafou o caso pra gente não ficar sabendo.

Nunca mais vimos o Seixas nem Seu Manoel, que, traumatizado, preferiu desaparecer do emprego a ter de encarar o berreiro das crianças depois da turma do lotação.


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[01/ABR/2005]


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