Meus pais nunca foram repressores, apesar de eu e minha irmã termos sido do Sion. Acontece que os pais das outras meninas do colégio eram, então, só minha irmã e eu podíamos, por exemplo, passar fim de semana fora, na casa de alguma delas. Uma vez papai me levou ao Country com uma colega de colégio e ficou no bar com os amigos enquanto nós duas, em vez de mergulharmos na piscina, achamos o maior barato entrar na quadra de tênis e ficar brincando de boleiros, correndo atrás das bolas de tênis, sob o sol causticante.
Papai nem tomou conhecimento, pois estávamos no clube e, portanto, seguras. Mas o pai da minha colega chegou e fez um escândalo dizendo que sua filha não era empregadinha, muito menos boleira, e proibiu-a de me visitar dali em diante, ''já que minha família não tomava conta da gente''. Passei muito tempo sem vê-la depois que saí do Sion, e então, após muitos anos, me liga uma voz absolutamente íntima.
- Não foi difícil te encontrar depois de tanto tempo, já que o seu telefone é tão óbvio!
- Óbvio? - perguntei, espantada.
- Claro! O seu telefone é 8!
- Oito? - indaguei, incrédula.
- É. Oito. Quer ver? A soma de 2+6 é igual a 8. Zero e zero é igual a zero, e 4+ 5, nove, noves fora, nada. Portanto, o seu telefone é oito!
Só depois desse diálogo louco ela me contou quem era ela. E aí eu soube, por outras pessoas, que ela não andava bem da cabeça. Acho que por causa de tanta repressão... Papai, ao contrário, dava força pra tudo. Então, aos 18 anos, inventei de abrir uma butique em Copacabana. Meu pai concordou dizendo ''que trabalho é vida e ócio é morte''. Convidei minha amiga, Sonia, pra ser sócia, mas sua mãe respondeu que filha sua não ia bancar a ''caixeirinha da Sloper''.
Mas seu pai acabou concordando e nós abrimos a loja (que não podíamos chamar de ''loja'' porque sua mãe achava vulgar). Tínhamos de dizer butique, que eu achava ''metido''. O fato é que abrimos a loja-butique na Barata Ribeiro, a primeira de moda jovem da época. Um sucesso onde recebíamos os amigos e os namorados entre vestidos Pucci, sapatos rosa ou verde-limão, bolsas envelope e espanto de freguesas um pouco mais tradicionais. Não raras vezes vimos a mãe da minha sócia vigiando, escondida atrás das árvores da rua, pra dizer, depois, que recebíamos homens no recinto!
Então, uma vez, meu namorado na época, cujo pai tinha uma ilha, nos convidou pra passar um fim de semana lá. Meus pais não criaram problemas, já que minha irmã iria com o marido, grávida de seis meses, impondo respeito. Sonia também foi com o namorado, Othon, mentindo pra família que estaria em Petrópolis na casa de amigos e parentes, porque só o fato de se pronunciar a palavra ''ilha'' já era um sinal de perversão.
Então embarcamos numa lancha emprestada, passamos pela ilha de Luz del Fuego, que nos acenou, enrolada numa cobra jibóia e, na hora de ir embora, meu namorado esqueceu de mandar a lancha voltar domingo à noite pra nos buscar, como era o combinado. Então, obviamente a lancha não foi.
Resolvemos, pois, curtir mais aquela noite na ilha deserta brincando de jogo da verdade (muito em voga na época), quando a Sonia começou a se preocupar com os pais. Como não existia telefone e estávamos literalmente ilhados, aconselhamos a ela que relaxasse e aproveitasse aquele pedaço de paraíso tropical, visitado por Villegagnon e outros tantos piratas, e fomos jogar King (outra moda da época), quando ouvimos o ruído de um pequeno motor. Sonia gritou:
- É meu pai!
Mas pai como, se era impossível nos descobrir ali entre coqueiros e jibóias em plena Baía de Guanabara? Sonia respondeu:
- Meus pais são capazes de tudo pra me encontrar.
E foi se esconder, apavorada, dentro d'água, com o namorado.
Dito e feito. Aproximamo-nos da varanda que dava para a areia e avistamos o pai da Sonia, o irmão dela e um barqueiro remando um barquinho minúsculo em nossa direção. O pai, que esperava encontrar a filha numa bacanal na tal ilha deserta, quando viu minha irmã grávida e nós todos jogando baralho quase morreu de vergonha e praticamente nos pediu desculpas, contando que sua mulher tinha avisado o Rio de Janeiro inteiro da ''fuga'' da filha.
Acabou sabendo que o pai do meu namorado tinha essa ilha e concluído que ela só poderia ter ''fugido'' pra lá. Passamos parte da noite procurando Sonia e Othon, que acabaram aparecendo pingando, tremendo de medo e de frio. Quanto ao pai, o irmão dela e o barqueiro, fizemos uma caminha pra eles na sala e conversamos até de manhã, quando entramos todos no barquinho alugado, única condução possível de volta.
O problema foi chegar ao Yatch Club de barquinho e sermos recebidos pelos pais do meu namorado com fotógrafos e polícia, achando que tínhamos nos perdido no mar e morrido afogados...
''Ah, Chapeuzinho, que susto!''
''Coitada da vovozinha!''
''Tudo porque desprezaste o que disse a mamãezinha...''