Junto com vovó eram três: as tias-avós. Sempre de chapéu. Com enfeites de uvas ou pássaros empalhados e um véu pequenino cobrindo o rosto. No inverno, usavam também uma raposa mordendo o próprio rabo enrolada ao pescoço. Eram absolutamente incorretas politicamente.
Os moleques debochavam delas, as únicas remanescentes de uma época distante. As empregadas cochichavam quando elas chegavam lá em casa dizendo que elas tinham nascido no século 19.
Um dia o cachorro policial, Dick, implicou com uma delas e deitou-a no chão colocando a pata em cima do seu peito. Lá ficou ela, inerte, de chapéu, no chão, enquanto papai chamava o jardineiro pra tirar o cachorro.
Usavam luvas de pelica e iam tomar chá na Colombo, de bonde e chapéu. Comiam doces sortidos e ''pilhas'' de sanduíches minúsculos de pathé, presunto ou queijo.
Eram amicíssimas as três, cúmplices de uma época há muito ultrapassada. Mas sempre falavam mal, entre si, da que estivesse ausente.
Antes de dormir, vovó cochichava segredos com uma delas, cobrindo o bocal do telefone com a ventarola japonesa pra que eu e minha irmã não ouvíssemos.
Chloé era a mais moderninha, desquitada e casada de novo com Lorí, que gostava de ler A Careta.
Chloé (assim mesmo, em francês), que se chamava Chlotilde, com h, fazia permanente e avermelhava os cabelos.
Titide fumava e tinha os dedos amarelos de nicotina, cheios de anéis, e aumentava a paranóia de mamãe quando papai chegava mais tarde do trabalho, cochichando dramaticamente ao seu ouvido: ''Isso mesmo, minha filha, salva a tua felicidade!''
Vovó e Titide eram viúvas.
Viúva Penalva, Viúva Amaral.
Não tinham nome próprio.
Não existiam como seres.
Nasceram pra se casar e ser viúvas.
Falavam mal dos maridos dizendo que eram ''piratas''.
Moravam no Catete.
Tratavam-se com homeopatia.
Belladona, noz vômica, alium sativo.
Eram positivistas e filhas de juiz.
Tinham uma massagista alemã, Dona Helena, que fazia massagem e fofoca. Sabia-se, através dela, tudo o que acontecia na família, afastada por brigas devido à sociedade no remédio da família, Rhum Chreosotado.
Faziam o cabelo no Seu Eduardo, na Praia do Flamengo.
Pintavam as unhas de vermelho com meia-lua e usavam uma bombinha de laquê pra conservar o penteado.
Também usavam ''extrato'', colar de pérolas com fecho de brilhantes, guarda-chuva com cabeça de cachorro, liam romance e iam ao teatro assistir a Alda Garrido.
Não sabiam fazer nada.
Davam ordens às ''criadas''.
Viviam do montepio dos maridos, da Marinha.
O Comandante Bello era apaixonado por vovó e lhe fazia visitas esperançosas à tarde.
Criticavam as filhas, que achavam problemáticas e asmáticas.
Não tinham nenhuma predileção por crianças ou cachorros.
Gostavam de ir ao Cinema São Luiz.
Faziam estação de águas em Araxá, Cambuquira, São Lourenço, pra onde iam vestidas de slack (conjunto de bermuda com paletó), com uma máquina fotográfica pendurada no pescoço pra compor o tipo esportivo. Mas não sabiam fotografar nada.
Andavam de charrete e ''sombrinha''.
Titide foi a primeira a morrer.
Ela me deixou um anel de ouro com três pérolas.
Depois foi a vez de Chloé, que não sobreviveu à morte de Lorí.
Vovó ficou sozinha.
Única representante de sua geração, sentiu-se deslocada.
Parou de tomar homeopatia e usar chapéu.
Levada por uma amiga mais moça, entrou pro ''Clube das Velhas'', onde se encontrava com pessoas de sua faixa etária, dançava, cantava e foi eleita miss.