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Entre a cigarra e a formiga


Sempre adorei comer doces desde que me entendo por gente. Balas de bonequinhos cor-de-rosa que minha tia trazia, de surpresa, escondidas na bolsa, e balas de coco que a cozinheira fazia. Sem contar as grandes orgias de açúcar que eram as festinhas de aniversário lá em casa ou na dos primos e filhos de amigos dos meus pais. Tinha paixão por olho-de-sogra, docinhos caramelados, brigadeiro, guaraná caçula ou Coca-Cola naquela garrafinha com um design esperto que cabia na mão. O açúcar, pra mim, estava, portanto, relacionado à alegria, ao prazer. De forma carinhosa, chamavam-me de ''formiguinha'', o que me fazia sentir, de uma certa forma, obrigada a corresponder ao apelido, exagerando minhas aptidões açucareiras.

Era magrinha e podia comer livremente até o dia em que meu pai ficou diabético, o que eu via como uma tragédia, já que ele nunca tinha ficado doente. Chorava achando que ia perdê-lo, pois ele tinha 40 anos, o que, a meu ver, era a mais provecta das idades.

Depois disso papai encanou em mim, já que, segundo ele, eu era a filha que tinha todas as características possíveis pra herdar dele aquela peste. Passei a ser então ''a herdeira'', no péssimo sentido da palavra, é claro, e a ser perseguida por isso. Já não podia comer docinhos nas festas e a babá era a encarregada de policiar a ''formiguinha'', apelido que, agora, passava a ter um sentido pejorativo. Tive então que arranjar, inconscientemente, outro ''número'' pra conseguir sucesso. Passei a me fazer de vítima. Quando a dona da casa me oferecia um doce, eu recusava de olhos baixos e expressão de dor.

- Obrigada... Eu não posso...

Todos achavam aquilo lindo e me apontavam como exemplo, o que me dava uma satisfação tão grande quanto o período de análise que tive que dedicar a essa ''vítima'' alimentada depois pelo caderninho de sacrifícios do Colégio Sion. Ninguém explicava, naquela época, que ser bom é fazer o bem sem ser preciso, pra isso, se privar dele, mas sim, partilhá-lo com os outros.

Não sei à qual das duas dediquei mais tempo no divã: se à ''formiguinha'' ou à ''vítima''. Talvez à formiga, pois além da sua loucura por doce, encarnava também a personagem de La Fontaine, que era vista com muitos bons olhos, por pensar no futuro e não ser imediatista como a cigarra, vilã da história. Mas, com essa formiga francesa, eu não me identificava. Achava-a mesquinha, pão-dura e careta. Tinha muito mais a ver com a cigarra, que adorava música e varava a noite tocando violão. Apanhava, então, por ser formiga ou por ser cigarra.

Formiga, com papai me proibindo de comer o marrom glacê que o Antenor de Rezende mandava de presente pra família, embrulhado naquele papel prateado, por exemplo. Por ser cigarra quando, já adolescente, cheguei em casa às oito e meia em vez das sete da noite, porque fiquei olhando o incêndio da boate Vogue com os amigos, do alto do Hotel Miramar.

Mal tinha me livrado da acusação de ser formiga, agora era a cigarra que atacava o império da minha adolescência repleta de culpas e figuras de mártires que me atormentavam mostrando-me suas chagas antes de eu dormir. Cansada deles, optei radicalmente pela cigarra e comecei a sair até tarde da noite: bebia, fumava, tocava violão. Além do mais, estava numa idade em que todo mundo queria ter a magreza da Twiggy (a manequim da hora), curtia os Beatles e os Rolling Stones. A formiga, portanto, estava absolutamente out!

Continuei por muito tempo sendo cigarra, até que um dia enjoei de sair. Mas não completamente. Enjoei daquela forma obsessiva que tinha substituído a compulsão de comer doces. Continuei gostando de música, que passei a ouvir na sala. Descobri a televisão, que antes da Net servia pra mim apenas como mais uma mesinha de colocar objetos, e me dei conta de que ficar em casa era uma delícia! Mas aí, talvez pelo fato de o ser humano não poder viver sem vícios ou transferências, e também porque só gosto de beber quando saio, voltei aos doces!!!

Isso mesmo! Papai só não está se revirando na tumba porque, por causa dele, nunca deixei de fazer exame de diabetes. E como os exames têm dado negativo, quase tive uma overdose de açúcar outro dia com uma torta que ganhei de presente e com os docinhos árabes que comi no jantar da Kátia Chalita.

Mas, embora a princípio tenha ficado culpadíssima, como de hábito, não voltei para a análise. Apenas reconheci que havia sido exagero e prometi a mim mesma que não repetirei a dose, não por causa de papai, ou por ter virado careta feito a formiga da fábula, ou por causa da magreza da Twiggy, mas porque já não gosto de nada que me faça mal ao espírito ou à matéria. Talvez tenha chegado ao tão almejado caminho do meio... Será a tal sabedoria que dizem vir com a idade? Pois então, bendita seja...


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[03/DEZ/2004]


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