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Show da Bethânia vale uma sessão de descarrego

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Show da Bethânia vale uma sessão de descarrego


Quando assisti a Brasileirinho, show da Bethânia, no Canecão, eu me emocionei quase às lágrimas (digo: quase, porque parei de chorar depois que comecei a tomar antidepressivo, que deixa a gente num agradável tipo de distanciamento brechtiano). Então fiz uma coluna aqui no jornal sobre o show, o mais perfeito a que assistira nesses últimos tempos, e terminei dizendo que se a Bethânia cantasse Anda, Luzia, uma música do seu repertório, pela qual sou apaixonada mas que não faz parte do seu atual repertório, eu levaria um colchonete pra platéia, e nunca mais sairia do Canecão. Fiquei espantadíssima quando uma leitora me mandou um e-mail perguntando: ''E pode?''.

Entrei em pânico. Se isso cai nos ouvidos dos sem-teto, por exemplo... Periga de se instalarem por lá, tomando a casa de espetáculos, na marra, ao som de Anda, Luzia, usada como código, numa espécie de Internacional comunista.

Quando o show voltou, agora no fim de semana passado, não resisti e resolvi vê-lo de novo. Convidei pra ir comigo um amigo baiano que quase desmaiou de felicidade.

Quando chegamos na porta, tivemos de nos submeter a um exame detalhado dos vários seguranças que revistavam o público, com direito a detector de metais, de mentiras e verificada nas bolsas das senhoras. Pensei imediatamente na minha crônica (não que eu seja tão lida assim pelos sem-teto, longe de mim tal cabotinismo, mas pelo que ela poderia ter suscitado através do boca-a-boca que pode causar um único artigo publicado no jornal...). Será que a polícia estaria procurando colchonetes dentro das bolsas e casacos do público na tentativa de impedir que se instalassem na platéia? Será que me levariam como líder do Movimento dos Sem-Teto enquanto eles fincavam a sua bandeira no meio do Canecão?

- Paranóia sua - argumentou meu amigo baiano - e culpa também de quem estudou no colégio Sion...

Fiquei menos preocupada quando vi que ninguém estava cantando Anda, Luzia, mas continuei achando estranha aquela geral, assim de repente, até que meu amigo afirmou que eu estava totalmente desatualizada, garantindo que agora é de praxe fazer revista em quem se atreve a sair à noite no Rio de Janeiro. Pois quem se dispõe a isso é considerado suspeito ou louco. Expliquei a ele que não era falta de informação. É que mesmo tomando antidepressivo e, aparentemente, não estando nem aí, não consigo me habituar com esse novo perfil da cidade, pobre de mim, que sou do tempo do Solar da Fossa, muito antes de existir o Canecão!

O mesmo tempo que passou também para Bethânia, fazendo a essência do seu talento transbordar em energia vibrante devolvida pelos espectadores num forte elo de luz.

Saí do Canecão mais leve e emocionada que qualquer sessão de descarrego, tamanho o poder da vibração. Quis guardá-la pra mim, em vez de ir jantar num restaurante, conforme combinado.

Cheguei em casa em estado de graça que logo se dispersou, quando liguei a televisão e vi que a morte de Arafat resultava em mais guerra, mais grana, mais petróleo, mais poder, mais mortos, mais ódio, mais separação e extermínio entre caims e abels.

No Rio, a via crúcis do caminho do Cristo Redentor levando turistas à crucificação.

Bons ladrões, maus ladrões, pobres coitados sacrificados, enquanto Pilatos continua lavando as mãos.

Desligo a TV, impedindo que a sua energia de horror impere também dentro do meu quarto, apago a luz do abajur e tento me conectar novamente com o show, adormecendo com a voz de Bethânia cantando: ''Pai, afasta de mim esse cálice''.


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[19/NOV/2004]


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