Nesses tempos esquisitos de greve, resolvo encarar a fila de um dos únicos bancos abertos em Botafogo. Maior que a dos drogados no Morro do Andaraí pra comprar cocaína. Gente, que fila é aquela que vi no jornal? Pensei que fosse a do INSS. Pois essa aqui está bem parecida. Não tem traficante no fim, mas tem muito camelô se fazendo às custas dessa greve. Pelo menos, que alguém se faça... Esse aqui do lado, se bobear, já ficou mais rico que o presidente do próprio banco, onde peno pra entrar há 40 minutos com as contas na mão. Fica essa discussão se o consumidor ganha ou não ganha com esse jogo... É ruim do consumidor ganhar, hein?
Se minha empregada vier no meu lugar para a fila, não almoço por três dias. Não adianta. Quem tem que pagar o plano de saúde milionário sou eu mesma. E sem atraso, senão vou ter que vender a casa pra pagar o hospital. Mas será que vale a pena? Como não consigo escolher entre a casa e o hospital, resolvo ficar na fila.
- Quer comer o bolo e guardá-lo ao mesmo tempo, né? - dizia o analista, nos áureos tempos.
Mas que bolo, gente! As escolhas agora são muito diferentes. Vai de casa ou hospital? É a falta de um bom mensalão, já que mensalinho nunca deu camisa a ninguém. Por favor, não me levem a mal, eu não estou fazendo crônica pornô. É a realidade dos fatos. Aqui na fila é tudo mensalinho, claro. Mensalão vai ficar na fila? Só se for pra receber o próprio...
Pois eu, nem em pé, nem sentada, consigo receber o dinheiro do meu ex-marido que foi exilado político. Mas não era o povo unido que jamais seria vencido, meu Deus? 68 se uniu, botou os homi lá no poder e nada? É por isso que a geração de hoje usa camisetas onde se lê escrito: ''votar é coisa de velho''. Foi isso, deu no que deu... E ainda tenho que ser chamada de velha por causa deles.
- Moço, o senhor tem aí um bloqueador de Sol nº 50, entre essas bolsas Vuitton? - pergunto ao camelô, resolvendo curtir o sol.
- Lancôme, Davene, Revlon?
- Lancôme, por favor.
Lambuzo o rosto de Lancôme do Paraguai. Na próxima greve, venho de biquíni e quem sabe trago a toalha pra estender no pedaço da calçada sem cocô de cachorro, depois de pedir licença ao casal de mendigos que mora embaixo de uma tenda de plástico, no meio da rua.
- Tá servida, madame? - pergunta a mendiga, mexendo a panela de feijão num fogareiro.
- Não, obrigada...
Assobiando um pagode, o marido da indigente toma banho numa bica, enquanto o bebê bebe a mamadeira com uma mocinha que deve ser a empregada. Difícil encontrar casal tão integrado nos dias de hoje vivendo sob a mesma falta de teto.
O carro do Crivella passa gritando: ''Mandou 22, mandou bem!''. Fico com aquela terrível musiquinha na cabeça. Alguém liga um rádio num rap. As músicas se confundem, juntando as letras que fazem uma canção só, como: ''Passei a mão no Buda e o Buda me deu sorte, manda 22 você também!''.
Mas o Crivella não é evangélico? Quem tá confusa agora sou eu. O cara do radinho começa a dançar na fila. Poxa, bem que a mulher do mendigo podia servir uns salgadinhos.
O dono do cachorro Sansão vem me contar que a Dalila morreu. Gente, mas isso não foi há muito tempo?, penso, distraída, enquanto ele me conta que Sansão está péssimo com a notícia. Homem gosta de cachorra mesmo, né? A Dalila vai lá, corta o cabelo dele, faz com que ele perca a força, depois o trai de todo jeito, numa época em que não tinha nem antidepressivo e o cara ainda fica arrasado. Vai entender...
Um garotinho negro pede R$ 1 pra comer. Dou-lhe R$ 2. A mulher na minha frente diz que são todos cheiradores de cola. Fulmino-a com o olhar. Um rapaz segura o meu braço, de repente, sussurrando algo. Vou logo tirando o relógio, distraída, quando o suposto ladrão me devolve o relógio junto com um panfleto de uma cartomante que traz a pessoa amada de volta em três dias. De volta, moço? Só se for algemado.
Compro o jornal e leio que o Cat Stevens foi barrado nos Estados Unidos. Gente, o Cat! Que vinha pro Brasil, ficava com a gente em Búzios... Mas que ele ficou esquisito, ficou, defendendo a pena de morte para o Salmon Rushdie. Quem viu o Cat querendo mudar o mundo cantando It's a wild world. Olha, acho que dessa vez concordo com o Bush. Sei lá o que tem por baixo daquela saia do cantor...
Entramos finalmente no banco, mas o sistema sai do ar junto com o outro, o refrigerado, que não quis perder pra ninguém. Desisto do banco, das contas, das multas, do plano de saúde e vou tomar uma cerveja na Cobal, que ninguém é de ferro. Oh, baby,baby, it's a wild world...