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Pulinhos, e não pílulas, para avivar a memória


Sempre fui muito distraída, talvez seja um problema genético, já que minha mãe e minha avó viviam dando gafes horríveis por falta de atenção. A um homem conhecido como ''o cara do perdigoto'', isto é, aquele que cuspia o tempo todo enquanto contava casos chatíssimos, mamãe comentou na frente de todo mundo durante uma reunião lá em casa: ''vamos entrar pois está chovendo''. Dito isto, ela e o homem do perdigoto olharam ao mesmo tempo pra cima e viram o céu estrelado, sob as risadas disfarçadas dos outros convidados.

Anos depois fiz a mesma coisa com um dentista amigo, no aniversário do meu namorado. Minha irmã, ao meu lado, olhou pro céu junto comigo, sem poder acreditar na reprise daquela cena antes estrelada por mamãe.

Num jantar que meu avô deu para o Malba Tahan, maior matemático do Brasil, vovó perguntou de repente ao convidado: ''o senhor é aquele que leva jeito pra contas?'' Meu avô queria matá-la, coisa que ela nem percebeu, enquanto continuava calmamente a comer a sobremesa de ovos moles. Eu, por minha parte, já contei aqui que empurrei um paralítico na cadeira de rodas, achando que era o meu carrinho de supermercado.

Pois ontem, nas Sendas, fui pagar ao caixa e percebi que ele só tinha registrado uma manteiga, enquanto eu comprara duas. O rapaz, delicadamente, respondeu que não, que eu só comprara uma. Como sou distraída, concordei, mas continuei achando que tinha colocado duas manteigas no carrinho. Olhamos o carrinho. Nada. O caixa tinha razão. Tudo bem. Fui-me embora. Quando cheguei perto de casa e peguei a chave da porta na bolsa, enfiei a mão numa coisa mole. Joguei a bolsa longe e só então percebi o pacote de manteiga lá dentro!!! Eu tinha colocado uma manteiga no carrinho e outra na bolsa, que não sei por que estava aberta. Poderia ter sido presa no supermercado como ladra de manteiga! Sairia no jornal. E a minha cara? Voltei às Sendas, chamei o gerente e disse a ele que tinha uma manteiga a mais na minha bolsa. O homem não conseguia entender.

- Uma manteiga a menos, a senhora quer dizer? A senhora pagou e não colocaram no carrinho, é isso?

- Não, senhor. Eu não paguei e coloquei, enganada, na bolsa.

- Na bolsa?

- É, moço. Coloquei equivocadamente, distraidamente, a manteiga na bolsa e quero pagar.

Entreguei-lhe R$ 2,85. O homem não podia acreditar. No final, acho que, mesmo sem entender, fingiu que aceitou o dinheiro e me elogiou, dizendo que se todo mundo fosse como eu, o Brasil não estava assim. E chamou uma assistente pra conhecer a pessoa honesta que tinha pago uma manteiga que estava na sua bolsa. A mulher me olhou desconfiada. Agradeci e fui-me embora correndo, pois tinha que me vestir pra encontrar uns amigos às 8h, no Antiquarius. Felizmente, liguei antes pra minha irmã, que também iria, pra saber se era mesmo às oito. Ela perguntou:

- O quê?

- O encontro no Antiquarius com nossos amigos.

- É - respondeu ela - Só que às oito de sexta-feira. Hoje é terça, acho um pouco cedo pra você chegar lá...

Ainda bem que não fui. Imagine começar a beber sozinha, achar que todo mundo estava atrasado, provavelmente cair dura de porre ou ir presa por não ter dinheiro necessário pra pagar o mico e o champanhe francês. Meu Deus...

Resolvo então anotar tudo na agenda, mas cadê ela? Estava aqui agora mesmo, não é possível essa perseguição comigo! Subo e desço as escadas do escritório pra sala, da sala pro quarto e nada da agenda. Lembro-me de uma amiga que achou seu anel de brilhante dentro da forma de gelo. Nadinha de agenda. Fico tão tresloucada que resolvo me lixar pra ela e ver meus e-mails. Tinha um do namorado que reencontrei virtualmente 30 anos depois. Fiquei mais nervosa ainda. Então perdi também a caderneta, onde anotei um e-mail de trabalho e todos os telefones do Festival de Gramado. Fui ficando louca, sem saber o que deveria procurar antes. Então, debaixo do e-mail do namorado achei um que falava de São Longuinho.

Segundo o remetente, João Siqueira, São Longuinho é o Google material. O Google acha coisas virtuais. São Longuinho, as materiais. Para isso, basta que se agradeça, dizendo o seu nome acompanhado de três pulinhos. Olha, não vou nem mais precisar fazer aeróbica na Lígia Azevedo. Vou pular o dia inteiro com São Longuinho. Se tivesse feito isso nas Sendas, por exemplo, não precisava voltar pra lá com uma manteiga na mão e a menor idéia de como isso aconteceu na cabeça.


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[17/SET/2004]


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