Os meios de comunicação são ambíguos. Dependendo do seu estado de espírito, um telefone, por exemplo, pode funcionar como uma bênção divina que se abate de repente sobre você ou como o culpado absoluto de todas as suas angústias, ansiedades e depressões.
Quantas vezes, na minha adolescência, fiquei grudada a um telefone preto e fúnebre esperando alguém que não ligava numa época em que ligar pra homem significava ser uma mulher fácil.
Às vezes (num tempo em que ainda não existia secretária eletrônica), punha-se a culpa na empregada desatenta e, no auge do desespero, telefonava-se pro amado em questão e perguntava-se, casualmente, com a voz doce e o coração aos saltos:
- Você me ligou?
Se ele respondia que não, o que obviamente acontecia, a desculpa era sempre a empregada que não sabia dar recado. Como se os rapazes fossem idiotas e não percebessem que a gente estava armando pra cima deles, assim como eles armavam pra cima da gente.
Mentia-se tanto pra ''não dar cartaz'' (ou seja: não demonstrar que se estava amando), que um ex-namorado fez um amigo me ligar dizendo que estava passando muito mal e que eu precisava visitá-lo urgentemente. Chamei minha amiga Sonia e, preocupadíssimas, fomos direto pra casa dele, que se encontrava muito bem, debaixo dos lençóis, ao lado do amigo. Os pais estavam viajando pra Friburgo e ele tinha inventado esse pretexto pra me ver. Saí de lá péssima.
Minha amiga perguntou o que é que tinha havido comigo e respondi que não sabia o que fazer para vê-lo outra vez. Se telefonasse pra ele, ficaria falada. Mas se ele também não podia ligar pra mim, porque isso seria ''dar cartaz'' demais, então pra que telefone? Era melhor um bom pombo-correio, pois assim não teríamos que encarar ninguém nem responder na lata.
Pois agora me sinto na mesma situação com a internet. Os sentimentos não evoluíram. Só a tecnologia. Passo dias com medo de ligá-la, porque, se não tiver um e-mail dele, vou fazer o quê? Mesmo sem saber o que é, minha avó não admitiria que eu passasse e-mail pra homem. Pior ainda que telefonar, pois fica tudo registrado. Ali. Como prova. E eu obedeço. Não mando nem morta! Mas onde é que já se viu? Não adianta aperfeiçoarem os meios de comunicação, a insegurança continua arcaica. Não há tecnologia nem Freud que a desempaque! Já gastei um dinheirão nos dois, em vão. Debalde.
Demonstrar amor continua sendo uma coisa vergonhosa. Como se a vida não fosse tão curta e a beleza tão necessária. Como se o tempo só desse pra se dizer coisas práticas. Mas não teria sido mais prático ter dado cartaz, ficar falada, ser uma mulher fácil do que perder o momento preciosamente preciso da vida que não volta mais?
Por causa disso fui andar na Lagoa. Só ela é generosa a ponto de me apaziguar com sua luz inigualável nessa época abençoada de clima frio e transparente.
Há tempos que não via o Rio tão bonito, com meninos pichando os muros floridos da Rua Visconde Silva com uma linguagem coloridamente indecifrável. Parei na frente deles, que se assustaram, e quando elogiei o seu trabalho, deram um sorriso agradecido, de aparelho nos dentes e piercing na língua.
Depois foi a amendoeira da beira da Lagoa, oferecendo-se em várias bandejas douradas. Minha avó a chamaria de ''oferecida'', mas ela não tá nem aí pra vovó. Transborda de amor e o demonstra com todo o seu corpo, sua vida. Passa o tempo todo dando cartaz.
A luz do céu contornando as nuvens era ainda melhor que os efeitos especiais das Olimpíadas de Atenas. ''Talvez porque Cupido tivesse passado'', me disseram.
Lá estava também o homem do coco (com quem sempre comprei, desde que me lembro de andar pela Lagoa), agora um pouco mais gordo, com cabelos ligeiramente grisalhos. E, acionada não sei por que tecla, lembrei-me de uma vez que, entretida na conversa com uma amiga, fomos embora sem pagá-lo. Então, olhei pra ele e perguntei, incrédula:
- Você lembra que eu saí sem te pagar, muitos anos atrás?
- Lembro muito bem - respondeu ele.
Paguei as duas águas de coco que tinha bebido há anos, sem juros nem correção monetária, a tempo de ler nas costas de um rapaz que passava de moto: ''Se você está conseguindo ler tudo o que está escrito na minha camiseta é porque a minha companheira caiu...''
Então volto pra casa. As endorfinas emergindo do fundo do meu corpo transformam-se em felicidade e bom humor. E a energia vibrando na minha aura acende o computador numa inesperada ligação direta.