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Intimidades devassadas na fila dos idosos


Estava no supermercado com meu neto, que adora sentar na cadeirinha do carrinho para olhar tudo lá de cima, sentindo-se superior. Na fila dos idosos, ao lado, um homem me perguntou:

- Você é você?

- Bom, pra mim, eu sou eu e você é que é você - respondi brincando - Mas como eu sou você pra você, gostaria de saber que ''você'' você pensa que eu sou?

O homem fez cara de quem falava com uma maluca e respondeu:

- Nada, não, desculpe. Achei que você era aquela artista...

Uma senhora na fila se meteu na conversa:

- Não. Ela escreve no jornal.

Aí o homem respondeu:

- Sabe por que é que eu falei isso? Porque ela parece a Maria Lucia Dahl.

A senhora continuou, olhando pra mim:

- Você é a Maria Lucia Dahl?

Meu neto respondeu:

- Ela é a vovó.

E assim se encerrou o papo sobre quem eu era ou quem deixava de ser, interrompido por uma observação na mesma fila dos idosos:

- Olha só aquela garota com aquele velho, viu? Ali na outra fila. Na certa, o velho não vem pra essa fila pra fingir que não é idoso. Deve ter vergonha da garota...

- Esse velho deve ter muito dinheiro... - disse a moça - Quem é que ia ficar com esse traste? É igual a minha patroa. Tem 75 anos e um namorado de 30. Mas ela dá tudo pra ele. Agora vai abrir uma academia de ginástica pra ele tomar conta, já pensou?

- E ele nunca te paquerou? - perguntou a senhora atrás da moça.

- É ruim, hein? Tô lá a fim de perder meu emprego?

- Essa fila não anda, não? - reclamou um velho com um carrinho transbordando de cervejas - Fica todo mundo aí conversando e andar que é bom, nada?

- E é culpa minha? - perguntou a moça do caixa - Calma aí, moço... Tô aqui ralando desde as oito da manhã...

- Não disse que a culpa era sua... - continuou o homem das cervejas, resolvendo abrir uma das latas e tomar ali mesmo.

- E ainda por cima ganho uma miséria! - disse a moça do caixa.

- Pior que é... - comentou a empregada doméstica - Eu tenho que aturar aquela velha com aquele bofe, mas pelo menos não ganho salário-mínimo...

- Pois eu não preciso de dinheiro, graças a Deus - disse a senhora de idade atrás da doméstica - Eu faço um bolo de nozes maravilhoso que levo lá pra academia e não sobra um. A turma da hidroginástica come tudo, depois fica com medo de engordar, mas comer, elas comem. Então disse ao meu marido que ia botar uma banquinha de bolos na academia. Ele ficou furibundo. Não quer que eu trabalhe. Homem não gosta de mulher que trabalha, não. Homem gosta de mulher boa de cama.

- Ah, também não é assim, não... - diz a doméstica - Amor conta também, gente...

- Amor... Que nada, minha filha... Vai falar de amor com homem que ele sai correndo. Homem quer lá saber de amor?

- Será que meu noivo se mandou porque eu vivia dizendo que amava ele?

- Ah... - exclamou a senhora - Num falei?

- Essa fila não anda, não?

Pedi ao senhor que reclamava da fila que guardasse o meu lugar porque eu tinha esquecido os fósforos. É que desde que minha filha tem dormido lá em casa, fósforos e canetas parece que combinaram e desapareceram para sempre. Meu neto disse que não ia sair da cadeirinha pra procurar fósforo comigo de jeito nenhum. Queria ficar ali. Na certa, pra ouvir aquelas fofocas meio pornôs. Nunca pensei que fila de idosos fosse assim.

A senhora disse que tomaria conta dele. Na seção de importados, uma socialite conhecida dizia pra irmã:

- Compra o carpaccio, boba... Faz mais vista.

Volto pra fila a ponto de ouvir a senhora perguntar ao meu neto.

- Como é o nome da sua avó?

- Vovó - respondeu ele - Já disse.

O velho enfezado já tomava a terceira lata de cerveja enquanto a empregada doméstica dava detalhes da vida sexual da patroa de 75 anos.

- E isso lá é amor? - insistiu a senhora.

Peguei uma revista num compartimento do caixa em frente aos idosos com detalhes da virgindade de alguém que não conheço. Nunca pensei que a fila dos idosos fosse tão animada.


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[13/AGO/2004]


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