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Um tempo para tirar a prova dos noves


De repente o passado transformou-se em presente. Em todos os sentidos. Sempre soube que passado, presente e futuro se entrelaçavam e se correspondiam em links e conexões incompreensíveis, mas não que pudessem me deixar tão confusa, sem saber em que tempo estou, feliz e infeliz, incapaz de distinguir se o passado interferiu no presente, tornando-o passado, ou se o presente virou passado, fazendo-me sentir como 30 anos atrás.

Será esse o tempo que se chama de ''mais que perfeito''? Que a perfeição é viver feliz e infeliz simultaneamente, sem tempo nem espaço? Não é... Num tempo mais que perfeito não pode haver sofrimento. Se há sofrimento é porque não é perfeito, menos ainda um perfeito que se diz ''mais''. Qual será então o tempo de verbo capaz de alegrar e entristecer em quantidades idênticas? Imperativo? No sentido de sermos obrigados a passar por isso para corrigir equívocos provenientes da juventude irrequieta? Se Deus deu um cérebro ao homem, conclui-se que é porque quer que ele seja responsável por suas ações. O problema é que deu também um inconsciente, que sempre, na moita, faz tudo ao contrário do que manda o racional. Deu também uma consciência que grita do fundo do abismo, tentando nos orientar, mas que fingimos não ouvir, pensando ser mais proveitoso até nos depararmos com a conseqüência dos nossos atos, ou a prova dos noves, que disfarçamos chamando de destino.

Tudo começou com um encontro mágico em Piazza Navona, em Roma. Olhamos um para o outro e ficamos hipnotizados. Dois dias depois, estávamos juntos na deslumbrante Praia de Sperlonga, cheia de hippies coloridos diante do mar turquesa do Pacífico, pacificamente apaixonados.

Sentia-me flutuar. Andava nas nuvens. Era a primeira vez que isso me acontecia de uma forma calma, como uma bênção enviada dos céus e que tinha tocado a ambos. Só que, antes de tudo isso acontecer, cansada de ser estrangeira na Europa, eu tinha comprado a passagem de volta para o Brasil. Com ele, tinha se passado o mesmo. Israelense, morando há cinco anos em Londres, tinha se cansado da Inglaterra e decidido voltar pra Israel. Resolvemos então retornar às nossas pátrias e origens e nos encontrar depois.

Vim para o Brasil. Fui fazer novela na Globo e análise de grupo com o Castellar.

Além de me oferecer trabalho, o Rio me festejou com as Frenéticas no Dancin'Days do Shopping da Gávea, com os shows dos Novos Baianos, dos Secos & Molhados e da Gal. Saí do Brasil no auge de uma ditadura melancólica para encontrar, na volta (apesar de a mesma ditadura ainda ter durado alguns anos), jovens, que resolveram ser felizes apesar da política e da repressão.

Nunca tinha visto país nenhum como este em matéria de alegria, descontração e criatividade. As praias povoadas de amigos por todos os lados eram seios de mãe a transbordar carinho. Nós e a natureza vivíamos perpetuamente em festa. Havia um brilho, nos olhos e no ar, e nos galhos que se balançavam entre os ramos inquietos. Por isso tudo, quando minha paixão ligou de Israel, não consegui sair daqui. Então ele veio me encontrar. Mas fora de Israel há muitos anos, assim como eu, queria voltar rapidamente para a sua pátria. E para lá ele foi, deixando uma passagem para eu ir ter com ele. Não consegui sair daqui. Disfarçava e adiava a viagem a cada mês. É que morria de amores por ele, mas também pelo Brasil. Achava que tinha tempo, pois a vida me sorria, apesar da paixão longínqua. Passou-se um ano de loucuras, praia, novela e amigos, quando recebi um telefonema. Era dele. Estava num hotel em Ipanema. Quase morri de felicidade.

Só que ele não veio só, mas com uma mulher. Por coincidência, era meu aniversário. Pensei que ia morrer de tristeza. Liguei para o Castellar. Ele recrutou o grupo e fomos todos (12 pessoas) buscá-los, ele e a mulher, no hotel, para tomar chope num bar de Ipanema, naquela época incomparável de solidariedade humana, de apoio grupal.

Há poucos dias, por coincidência novamente no meu aniversário, recebi um e-mail dele, casado com a mesma mulher com quem viera ao Brasil, 30 anos antes. Era um e-mail apaixonado, atemporal, como se estivesse em Sperlonga ou em Piazza Navona . Jamais parou de pensar em mim. Nem eu, nele.

Concluí então que a incapacidade de viver a dois me prendeu inconscientemente à pátria amada, como ao útero materno, e fui dormir sozinha e apaixonada, nesta época pós yuppie, sem grupo, nem Castellar.


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[30/JUL/2004]


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