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Entre um tiroteio e um assalto, o cotidiano blasé
[11/JUN/2004]
O namorado, fotógrafo bem-sucedido que trabalha na noite, tinha de cobrir um evento badaladíssimo na Barra. Então minha amiga me ligou durante o jornal das oito, morrendo de ciúmes.
- E se ele resolver ficar com aquela perua que botou silicone na boca e fez um narizinho micro que não combina com as bochechas?
- Gente, mas aquela mulher é muito esquisita!... - comentei, vendo o massacre de Bangu III na televisão. - Por que ele haveria de ficar com ela?
- Porque a mulher não pára de passar e-mail, telefonar, chamar pra fazer fotos particulares e ainda dá medalhinha da campanha da Aids, nariz de palhaço pela paz...
Mudo a TV de canal e vejo um pouquinho da tortura no Iraque.
- Esse negócio de trabalhar na nigth é dose, sabia? - continua ela.
- Sabia - respondo, vendo a cabeça do prisioneiro de guerra rolar pelo chão.
- E depois, meu analista falou que ele tinha outra. Disse até o nome dela...
- Gente, mas isso não é análise, é fofoca... - falo ao telefone, vendo os judeus explodindo parte da Palestina.
- Também acho - admite minha amiga. - Mas adoro meu analista, adoro meu namorado, então resolvi fingir que não ouvi e continuei com os dois: o namorado e o analista.
Um massacre em Bangu III acontece entre os chefes do Comando Vermelho e os da Amigos dos Amigos. Os corpos mutilados deixam o presídio enquanto um preso baleado é esquecido lá dentro.
- Perfeito. Então, não vai se aporrinhar por causa de uma pobre perua de nariz micro e boca de silicone. Deixa ela se divertir... - digo, distraída, olhando um cadáver deixar a Rocinha num carrinho de mão.
- Pois é - continuou minha amiga - eu vou é fazer um número irresistível pra quando ele chegar.
- Então, merda! - despeço-me, com a saudação que se usa pros atores prestes a entrar em cena.
- Obrigada - responde minha amiga. - Boa-noite.
- Boa-noite - digo, bocejando, ouvindo um barulho meio surdo que me distrai da entrevista de um filho que nega ter assassinado os pais em São Paulo.
- Que foi isso, Helena? - pergunto à empregada, que dormiu na minha casa por causa de um ônibus queimado na Linha Amarela.
- Nada, não, senhora. Uma AR-15...
- Ah...
Dou uma zapeada na TV e vejo o terceiro ciclone passando pela América do Sul. Desligo tudo, pego o livro novo do Fernando Sabino e, mal começo a ler, minha amiga liga de novo.
- Delegacia? - pergunto, espantada, ao telefone. - Mas você não ia fazer um número pro seu namorado?
- E fiz - responde ela, do celular. - Sabe aquela camisolinha de cambraia transparente que a Ornela Mutti usou naquele filme que nós vimos nos anos 80, não me lembro o nome?
- Han...han... - respondo, vagamente, morrendo de sono. - O que tem ela?
- Mandei fazer uma igualzinha.
- O quê? Fala mais alto que o morro está atirando!
- A camisola da Ornela Mutti! - diz ela, gritando. - Lembra?
- Lembro... - minto com preguiça de fazer esforço pra lembrar da camisola de uma atriz num filme dos anos 80. - Sei...
- Pois é. Coloquei-a grudada ao meu corpo, em cima da pele, calcei um sapatinho tipo boneca igual ao da Ornela e quando ouvi a chave entrar na porta lá de casa, peguei uma taça de champanhe, fui até a janela, bem sexy, e fiquei olhando pra ele, que ficou louco, me agarrou, me beijou e quando estávamos no auge da paixão, olhei lá pra baixo de repente e vi que estavam roubando o meu carro. Então dei um grito, saímos correndo, pusemos uma roupa rápido e viemos aqui pra delegacia dar parte.
- Eu bem que avisei que li a entrevista de um ladrão, na Veja, dizendo que se amarrava num Ford Ka... Você deixa o carro na rua...
- Deixei só enquanto esperava o João, depois a gente ia sair pra jantar... Ladrão maldito! - continuou minha amiga - Roubou meu carro e cortou a minha onda... O João foi pra casa, exausto. Será que eu posso dormir aí?
- Vem - concordei. - Mas dá um tempinho que o Santa Marta está atirando.
- Bobagem... - responde ela - daqui a pouco passa...
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