De repente a geladeira nova ficou esquisita. Ah, meu Deus, ela também? Chamei um rapaz pra consertá-la e ele veio com mais dois.
- Muito pesada, madame... - explicou o rapaz.
- Tudo bem, moço - respondo, olhando aqueles negros fortes, descendentes diretos dos escravos no Brasil, que continuam arrastando geladeiras pelas ''Cortes''...
- Pobrema de gás. - disseram - Está quase sem nenhum...
Ah, meu Deus! Até ela? Enfim, a geladeira pode se dar o luxo de perder o gás, ficar cansada... Mas e eu? Ah! E o trabalho? E a culpa? Queria mesmo era ler a História da vida privada no Brasil, do Felipe Alencastro, enrolada no meu cobertor, aproveitando o barulhinho da chuva lá fora... Ler uma maravilhosa passagem em que conta como Gonçalves Dias, ridicularizando os poemas vigentes, escritos ainda em português de Portugal, afirma que os brasileiros já tinham o seu próprio sotaque e debochava dos poetas que ainda rimavam ''mãe com também''...
Estava eu rindo dessa pequena observação, quando os homens vieram se despedir. Notei a falta de um deles e perguntei se já teria partido antes dos outros.
- Não, senhora - disseram os rapazes. - Está colocando a saia.
- Saia? - perguntei, espantanda, pensando na pouca ou nenhuma intimidade que tinha com aqueles homens pra que fizessem uma piadinha daquele nível.
Mas, pra ser educada, dei um ligeiro sorriso que se transformou em risada, pensando naquele homenzarrão de saia... Estaria ele se fantasiando para o entrudo?
- A saia da geladeira, madame - respondeu um dos homens, seriíssimo.
Fiquei passada ao me lembrar que geladeira também usa saia... Mais uma afinidade comigo, além da de perder o gás, assim, de repente... Quem sabe, diante do orçamento elevado que me deram, não seria melhor sugerir-lhe um antidepressivo, um uisquinho, um Lexotan?
Acordo do devaneio e levo o último rapaz até a porta, depois de ter esperado alguns minutos para que ele colocasse a saia. Saio de casa e passo em frente a um botequim onde tocava Enrosca, do Fábio Jr.
Começo a ''viajar'', lembrando-me de Ciranda, cirandinha, uma série antiga da Globo que falava de jovens, com o próprio Fábio bem mocinho como ator, Lucélia Santos e não me lembro mais quem. As pessoas de dentro do botequim começaram a me olhar até que um bêbado, sem camisa nem sapatos, saiu lá de dentro e, quase caindo, perguntou, gentilmente, se eu queria dançar.
Respondi que não, muito obrigada, mas dançar assim na rua às dez da manhã era um tanto estranho... O dono do botequim fez um sermão pro bêbado, que retrucou, ofendido, olhando pra mim:
- Só por que sou caipira não posso ter bom gosto?
Achei por bem parar de pagar mico na Voluntários da Pátria e resolvi comprar o CD com a música que estava ouvindo. Para meu espanto, todas as lojas de CDs (que não eram poucas) tinham fechado. Perguntei em uma delas (que havia virado brechó) o que tinha acontecido. O dono da loja me respondeu que em Botafogo não existia mais nenhuma loja que vendesse discos.
- Quem poderia pagar por um CD novo que chega da fábrica na loja a R$ 28 cada um? Por quanto poderíamos revendê-lo?
Então, esse mesmo ex-dono de loja de CD me fez reparar como diversas lojas ali perto haviam fechado suas portas. Numa mesma rua fechara a padaria (que parecia eterna), o restaurante, que há pouco tempo tinha fila na porta, a loja de roupas masculina e o botequim! Pra botequim fechar, quer dizer que tá feia a coisa...
E, enquanto pensava em todos os lugares que haviam fechado desde que eu me entendo por gente, lembrei-me do ator Nildo Parente me contando (num restaurante já fechado): ''Só em Copacabana acabaram-se os cinemas Copacabana, Alvorada, Caruso, Riviera, Alaska, Royal, Rian, Art-Palácio, Bruni-Copacabana, Condor Copacabana, Ritz, na Galeria Ritz, Cine-Leme, Cinema 1, na Prado Jr., e Alpino, na Gustavo Sampaio, que eu me lembre...''
Os cinemas foram desaparecendo ao longo de muitas décadas, mas as lojas dessa rua fecharam de um mês pra cá, fora as casas que estão à venda ou pra alugar...
Penso, esbarrando numa banquinha de CDs cheia de Fábios Jrs.
- Quanto é, moço?
- Cinco real.
Devo confessar que comprei o CD pirata. Fazer o quê, gente? Este país é pirata! Até que melhorou bastante pirateando CDs, porque, muitos anos depois de ter acabado o tráfico de negros no mundo, o Brasil continuava a piratear escravos!