Fui ver o filme do Mel Gibson, depois de muito hesitar. Mas foi tanta a polêmica que resolvi dar uma olhada, porque, afinal de contas, é uma história sempre boa de lembrar. E depois, a discussão sobre quem matou Jesus, romanos ou judeus, me incentivou a uma refrescada de memória. Igualzinho à invasão do Iraque onde invasor e invadidos se matam pelo poder, pela grana e aquela baixaria de sempre. É verdade que os romanos eram mais elegantes, mais políticos ou inteligentes que os americanos, não impondo aos invadidos nenhuma forma de religião... (Não sei se isso adiantou muito no caso, né?) Mas, voltando ao filme, parece que fui assistir à Farra do Boi. É de uma falta de gosto, de uma inverossimilhança e de um sensacionalismo insuportáveis. Não há Cristo que pudesse resistir a tanta tortura sem morrer antes da crucificação. Mesmo com a ajuda de Simão, o cireneu, com as paradas pra discutir quem vai pro trono ou não vai, como na absolvição de Barrabás, e outras atrações interrompendo a todo o momento a Paixão de Cristo e fazendo do filme uma espécie de programa do Ratinho - pois até o desespero de Judas com aqueles diabinhos de quinta fazendo caretas parecem uma pegadinha. Cortam o clima completamente, quer dizer, o clima da tragédia que foi o suicídio de Judas, tragédia essa que todos temos na cabeça, porque em matéria de ''clima'' mesmo,
A Paixão de Cristo não tem nenhum.
Quando vai pintando unzinho vem um efeito especial tipo diabinho podando-o pela raiz. E o que será que quiseram dizer com aquele Herodes gay? Foi pra aporrinhar mais ainda os judeus? Porque, gente, já ouvi falar horrores de Herodes no Sion, mas que ele usava cílios postiços, peruca e batom foi a primeira vez. Pra mim, foi isso que pegou pros judeus: Herodes gay. Pilatos se apresenta machíssimo, lindo e chiquérrimo com aquela roupinha de romano. Já Herodes, não sei por que cargas d'água, é uma boneca daquelas antigas, do tempo da Galeria Alaska.
Os pontos fortes da Paixão são a luz, o figurino, a maquilagem (só os ricos têm dentes, o resto é tudo 1001: um dente, zero, zero, um como deveria ser realmente na época). Os atores tambem são ótimos e as mulheres não têm aquelas sobrancelhas tiradas nem boca pintada pra fora como nos filmes bíblicos de Hollywood. E a idéia de todo mundo falar latim e aramaico é bem interessante, mesmo tendo feito o ator que interpreta Jesus declarar que aprender aramaico foi pior ainda do que ficar crucificado o filme todo, com uma coroa de espinhos na cabeça. A única palavra que entendi dessa língua foi ''idiota'', que, aliás, se diz muito no filme. Era um alívio. A cada ''idiota'', as pessoas se entreolhavam, cúmplices, dando um refresco à tortura incessante.
Por falar em tortura, assisti, no jornal da TV, sob os olhares complacentes dos jornalistas que sorriam, à malhação do Judas na Semana Santa. Não sei o que há pra sorrir dessa cena: umas criancinhas inocentes dando porrada num boneco que eles não têm noção de quem seja, até ele se despedaçar sob os aplausos dos adultos. Por mais que seja Judas, por mais que seja traidor, precisa ensinar tortura às pessoas, desde pequenininhas?
É por isso que outro dia li no jornal que tinha um cadáver dentro de um saco plástico preto na Praia de Copacabana. Os adultos armaram a barraca ao lado dele e as crianças, volta e meia, suspendiam o plástico pra ver a carinha do cadáver e sair correndo às gargalhadas. Gente...
Mas, voltando ao filme, não perdi o meu tempo. Mesmo com todo o sensacionalismo ele me fez refletir sobre romanos, americanos, traficantes, poder... Tudo igual desde Cristo, ou antes d'Ele. Todos puxando o tapete uns dos outros. Dudu e Lulu não são diferentes das tragédias de Shakespeare. O que foi Ricardo Terceiro, senão um Dudu um pouquinho mais chique armando a queda do império de Lulus, Beira-Mares, Escadinhas (lembram dele?) e talvez outros ainda mais importantes cujos nomes não saem no jornal?
O filme serviu também pra eu me sintonizar com Jesus, do qual sou devota, fã, tiete inflamada. Mas desde que saí do colégio Sion que não me achava ''digna'' d'Ele. Juro. As freiras puseram isso na cabeça das crianças deixando-nos com a auto-estima no pé! E mesmo com toda análise e antidepressivos e depois de ter falado com um padre maravilhoso na PUC, ainda assim não me achava merecedora da comunhão!!! Era tanta a culpa de existir que o padre dizia: ''pode comungar, minha filha, que bobagem...'' Mas nem assim eu acreditava...
O filme serviu pra eu voltar ao tema e meditar novamente sobre isso. E na primeira oportunidade que tive, que foi na missa de 113 anos do Jornal do Brasil, comunguei de novo!!! Mais de 30 anos depois! Hesitei um pouco ao entrar na fila, depois pensei: ''Quem disse que não sou digna e merecedora?'' Então levantei-me decidida e encarei as freiras do Sion que me olhavam dentro da minha cabeça dizendo: ''Qual! Tsi, tsi, tsi! Ne mérite pas la croix!''
- Mereço, sim - sorri pra elas em troca, me sentindo tão bem que não podia estar errada.
Acho que elas me entenderam também, pois acabaram sorrindo de volta. Então abracei Notre Mère (aquela que só falava francês)... Ufa! Que alívio... Acho que devo isso, de uma certa maneira, ao filme do Mel Gibson... Ou será ao tema poderoso?