Acho que o ''inferno vermelho'' programado pelo MST pra abril chegou até aqui em casa... Só nesta semana que passou tive várias invasões de sem-terra. O primeiro foi um gato com um rabão angorá que trocou o botequim pelo meu jardim causando um sério problema com os gatos da casa, que se armaram de unhas e dentes e, como legítimos representantes do Incra felino, puseram-no pra fora aos gritos e palavrões. Mas ele voltou. Porque viu que eu e o meu amigo que passa um tempo aqui em casa nos apaixonamos mortalmente por ele e seu irresistível rabo cinzento. Percebendo isso, deita aos nossos pés, ronrona, rola pelo chão fazendo aquele charme que só mesmo o Tom faz pra aporrinhar o Jerry, puxando o saco dos donos da casa nos desenhos animados.
Tento não botá-lo no colo pra não atiçar o ódio dos dois outros, que, afinal, moram aqui há quatro anos, de papel passado, IPTU pago e adoção registrada. Mas quando eles não estão olhando, eu agarro o bichano, que me faz toda sorte de agrado, por mais que eu saiba que gato é traiçoeiro, interesseiro, falso. Dito e feito. Fica aqui até encher o saco, come o patê, a ração dos outros gatos, dorme de barriga pra cima e depois retira-se sem nem um ''bom-dia cachorro'' (com o perdão da má palavra) pra, certamente, tomar umas biritas no botequim, comer uma boa carne de porco com muita gordura e fazer o mesmo charme pro dono. Então eu digo:
- Pronto. Agora não vai mais entrar. Dois gatos, fora o da minha filha, que às vezes faz uma boquinha nas Whiskas aqui de casa, já está de bom tamanho.
Mas ele agora não mia mais pra entrar. Invade a casa, como um autêntico sem-terra pulando pela árvore. Ando com medo que ele resolva derrubá-la pra fazer um acampamento com a madeira e então, pra não incentivá-lo, escondo dele os jornais contando da plantação de eucaliptos que os seus colegas puseram abaixo... Nossa!
Pessoas que lidam com a terra deveriam saber quão sagradas são as plantas, quanto tempo demora um eucalipto daqueles pra crescer, mesmo levando em conta que o tempo em que se fala em reforma agrária neste país remonta a muito mais. Desde as Capitanias Hereditárias que os donatários são os mesmos... Mas as pobres das árvores não têm nada com isso, gente. Que estas aos menos sejam poupadas!
E não ficou por aí. Como prometeu o Stédile, não foi só o gato que veio, não. Depois dele veio uma aranha do tamanho da minha mão, que se mudou pro teto do meu quarto. Nunca vi nada tão grande. Penso que não seja caranguejeira, a não ser que tenha depilado as pernas pra fingir que é do bem.
Na primeira noite fui dormir no quarto de cima e deixei o meu pra ela. Na segunda, achei um desaforo e voltei com minhas cobertas, livro e óculos lá de cima. A aranha, nem tchum! Continuava no mesmo lugar, fazendo fiau. Meu amigo queria matá-la (ai, homens!), mas eu o proibi e resolvi fazer dela uma aliada contra os mosquitos. Chama-se Ariadne e pelo que parece é gente boa... Mas se a moda pega, daqui a pouco até aquelas de perna cabeluda e bigodes eu vou ter que agüentar...
Então ganhei uma garrafinha de colocar água pra beija-flor, fiz tudo o que minha amiga mandou: coloquei um tanto de água, outro de açúcar e no dia seguinte... a garrafinha parecia uma colméia crivada de abelhas. Pensei logo em comprar uma máscara e começar a produzir mel (pros sem-terra não dizerem que minha casa é improdutiva), mas meu pedreiro disse que aquilo era uma espécie de ''abelha-cachorra'' que só fazia comer. Por que será que ando atraindo esse tipo de gente?
Como se não bastasse, encontrei um morceguinho morto no dia seguinte no tapete da sala. Lindo. Parecia um mini-guarda-chuva aberto. Mas, para que também não invadisse o meu espaço, que diminui a olhos vistos, mesmo eu sendo contra matar qualquer tipo de bicho, preferi que os gatos o tivessem matado antes que sugasse o meu pescoço. Se bem que paira uma dúvida no ar. Pois na noite passada, quando eu estava com insônia, vi um vulto na varanda e pensei:
- Mais um integrante do MST, meu Deus!
Mas quando olhei melhor vi que ele não tinha foice nem cartaz na mão, mas uma capa chiquérrima, bem cortada e escura, com pinta de importada de um país frio e dois caninos bastante afiados que lhes saíam dos lábios superiores. Então acendi a luz e vi um morcego voando rapidamente em direção à lua cheia e os três gatos (agora enturmados pelo medo) entrarem, arrepiados, debaixo do banco de azulejos azuis.