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O Brasil solidário dentro da própria loucura


A dentista Márcia Romanach tinha 24 anos quando atendeu, no Hospital Universitário, seu primeiro paciente soropositivo. A doença ainda era um mistério para os médicos e dentistas e ninguém sabia como lidar com ela. A paciente era uma moça que estava sofrendo a dor de um maxilar quebrado e os dentistas, amedrontados com a idéia de pegar Aids, não se atreviam a tratá-la.

Depois disso, Márcia passou a atender sobretudo os soropositivos. E os que não podem pagar, ela atende de graça. Como uma missão. Sua família, percebendo esse seu dom, deu-lhe dinheiro para fundar o Instituto Mário Romanach, que conta também com amigos e colaboradores. A fila de espera é de 200 pessoas no seu consultório, onde Márcia fica até tarde da noite recebendo dinheiro de quem tem para ajudar quem não tem.

Pude ver de perto o seu trabalho por meio de um amigo que se trata com ela e me encantei com essa mulher pequena, com cara de garota e um riso franco por trás da máscara protetora. Márcia é uma espécie de Betinho ao contrário. Betinho tinha Aids e ajudava quem não tinha. Márcia é sã (graças a Deus) e trabalha pra quem tem Aids.

Está sempre procurando meios pra conseguir mais dinheiro para investir no seu intento. Para isso organiza leilões, aos sábados, em Vila Isabel, e, no próximo domingo, vai fazer uma passeata, onde venderá camisetas com o mesmo propósito, a partir de 10 horas da manhã, em frente ao Copacabana Palace. Pode ser um ótimo programa matinal caminhar pela Av. Atlântica ao sol de outono, podendo, além de curtir, apoiar esse incentivo extraordinário.

Eu vou estar lá, se Deus quiser, pois cada dia me interesso menos por celebridades e mais por pessoas especiais. A Márcia é especialíssima. E os brasileiros, solidários. Por isso boto fé na passeata, uma iniciativa particular, já que perdi a fé na geral, ou melhor, nos governos. Todos. E acho que nem é culpa deles. Existe uma falência no sistema, na máquina. Como se enfrentássemos a chegada do novo milênio num Ford bigode.

Existe uma falência na noção verdadeira de Bem e de Mal, de esquerda e direita, capitalismo, comunismo, democracia, nada disso mais existe. Existe uma manipulação de tudo isso visando a determinados fins, determinados lucros. Uma espécie de conceitos ''transgênicos'' criados ao bel-prazer, misturando alhos e bugalhos, muito longe dos originais.

Ficamos entre Bush e Saddam ou Bush e Bin Laden? Quem é o bem? Quem é o mal? Não falamos mais a mesma língua dos governos. O que é ''bem'' para eles, não é pra nós. Só acredito agora num processo de conscientização individual que vá contagiando aos poucos a humanidade. O inverso do ''meu pirão primeiro'' das vilãs de novela, da Lei de Gerson. Até que essa conscientização geral aconteça, não vai haver nenhuma virada.

Nenhum ser humano regido por valores mutáveis, condicionais e adaptáveis, pode transformar nada. Se cada um fizesse a sua parte olhando o próximo como semelhante em vez de inimigo, o mundo seria mais ameno e a vida vivida sem tantas defesas, como um prolongamento da infância. O Brasil é solidário dentro da sua própria loucura.

Outro dia, uma amiga foi ao supermercado, deixou as compras no carro estacionado na rua, foi ao banco e, quando voltou, dois ladrões estavam tentando roubar seu automóvel. Ela ficou olhando, apavorada, sem saber o que fazer. De repente, tomou coragem e resolveu tentar um diálogo:

- Moço, será que o senhor podia deixar eu pegar minhas compras lá dentro?

O homem olhou, mal-humorado, depois esmoreceu pelo inusitado da situação.

- Tudo bem. Pega. Mas pega rápido que eu tô com pressa.

E gritou pro comparsa:

- Morcego! Abre a porta aí que a dona vai pegar as compras.

Morcego abriu a porta. Minha amiga pegou os pacotes. Então ela viu os caras entrando dentro do carro dela e não se conteve:

- Poxa, moço, eu não tenho seguro...Vou perder o meu carro...

O ladrão saltou, deu um suspiro e perguntou:

- Não tem seguro por quê? Não sabe que não se pode sair sem seguro numa cidade violenta feito o Rio de Janeiro?

Minha amiga disse:

- Sei... Mas não tenho dinheiro...

Então o ladrão suspirou e chamou de novo:

- Morcego! Vamos roubar o carro da frente que é mais rico, deve estar segurado.


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[26/MAR/2004]


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