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O tempo passa e é surpreendente a sua pressa


Fui ver o filme do Silvio Tendler sobre o Glauber. É bonito, emocionante e muito engraçado também por causa dos depoimentos das pessoas, pela falta de papas na língua e pela inteligência brilhante do protagonista, enfim, pelo personagem anárquico que Glauber foi. Mas uma coisa me impressionou: como morreu gente de lá pra cá! Gente que ainda estaria moça, gente que estaria velha, contando tudo, dá uns dez! Alguns se foram de morte natural, outros tragicamente. Voltando novamente ao Caetano, de ''susto, bala e vício'', tudo isso junto, ao mesmo tempo. Geração inquieta, que gostava de riscos... Muitos eu nem esperava ver ali, arrasados, chorando, no enterro do Glauber... Foi de lascar, além do Glauber, ver meus amigos, ex-namorados, ex-marido, mortos. Claro, a gente morre, né? Fazer o quê? Rezar por alma. Mas quando a gente vê muitos companheiros de viagem que já se foram, dá uma sensação esquisita...

- É idade - dizia meu pai, aos 50 e poucos anos. - Todo dia agora eu tenho que ir ao cemitério. Quando chego o coveiro já me cumprimenta: ''Opa!''. Estamos virando íntimos...

Gente! Achava que isso só acontecia com meu pai... Meus amigos, não, imagina... Nós éramos jovens e eternos. Isso de morrer, era pros outros. Ficar velho também. Uma vez, eu tinha 30 anos, quando uma amiga da minha irmã me falou depois de vários chopes:

- Nossa! Você era tão bonita no filme do Walter Lima...

Meu chope entalou. Como ''era?'' Meu Deus, eu só tinha 30 anos! No filme eu tinha 23, não era tão longe assim...

Não tenho nem tinha esses grilos de idade, muito menos naquela época, mas 30 anos, poxa! Até Balzac dava força pras mulheres de 30, que acabaram ganhando um apelido sexy e viraram ''balzaquianas''. Tinha até uma música de Carnaval que a gente cantava, nos bailes infantis: ''papai Balzac já dizia... Paris inteiro repetia: Balzac já deu na pinta! Mulher só depois dos 30!''. Pois agora parece que Balzac não está mais com nada. Quem faz sucesso são as meninas de 15 outra vez, as Lolitas... Manequins, atrizes... As de 30 já fazem papel de mãe... Nós, que amávamos tanto a revolução, até isso revolucionamos nas décadas de 60 e 70. Uma das condições das mulheres liberadas era não mentir idade. Porque antes, todas pagavam mico, escondendo ou falsificando, na carteira, a data de nascimento. Minha mãe mentia não só a idade dela como a nossa, minha e da minha irmã. Uma vez, numa viagem de navio, quando eu já tinha 17 anos e minha irmã uns anos mais, fumávamos no deck, quando ouvimos minha mãe responder a uma senhora que perguntou nossa idade:

- Onze e 13.

E a mulher, espantadíssima, perguntou:

- E fumam?

Numa outra vez, mamãe teve uma crise de asma e meu pai chamou o Prontocor. Minha mãe estava sufocada, quase à morte, sem poder falar. O médico examinou-a e achou que a coisa era séria. Eu rezava num canto quando ouvi o médico perguntar:

- Quantos anos ela tem?

Papai respondeu:

- Quarenta e oito.

Imediatamente, mamãe balançou o dedo e falou com uma voz perfeita:

- Quarenta e oito, não. Trinta e seis!

A minha geração, não. Tinha que ser verdadeira e mentir a idade era uma caretice. Naquela época, tudo bem... Agora é que tá começando a ficar um pouco difícil... Mas se alguém me vir falsificando um documento, por favor, chame a atenção pro mico. Se bem que hoje em dia já não sou mais radical... Quem quiser que falsifique, ponha botox, faça plástica, lipo, silicone, plante bananeira na Avenida como a Dercy, diga que tem 15 anos, eu acho ótimo... Agora, bom mesmo seria se o fato de falsificar datas fizesse com que as pessoas vivessem mais. Porque não é fácil ver aquela quantidade de amigos que se foi. Difícil encarar... Só se espiritualizando cada vez mais, entrando em sintonia com o Eu Superior, fazendo muito johrei!

Além disso tudo, o melhor mesmo é continuar achando que isso não acontece com a gente, como uma amiga minha, jovem, que, passando pela porta do cemitério, me perguntou, pintando a boca:

- O que quer dizer: revertere ad locum tuum?

Respondi:

- Volte ao teu lugar.

Então ela respondeu com voz de quem passa batom:

- Meu? Eu, hein? Tô fora!


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[19/MAR/2004]


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