Por que será que algumas pessoas, como eu, continuam distraídas mesmo depois de 30 anos de análise? Sempre contei aos inúmeros psicanalistas que freqüentei que eu era distraída e eles sempre interpretaram a distração como ''fuga''. Mas fuga de quê? Pra onde? De quem? Pelo que eu entendo, o que eles querem dizer é: fugir do novo pra não sair do conhecido, onde nos sentimos mais seguros, mais cômodos, mesmo que este conhecido seja um saco. Igual àqueles casamentos em que a pessoa fica com o mesmo marido ou a mesma mulher porque acha que é tudo uma chateação mesmo, então pra que mudar?
Mas eu, não. Faço análise pra mudar. Acho até que mudei. Na marra! Porque também é uma questão de força de vontade, crença, objetivo, esforço. Por exemplo, há uns dez anos, fui à Cobal com um amigo e confundi o meu carrinho de compras com a cadeira de rodas de um paralítico. O cara estava escolhendo umas frutas e eu o carreguei lá pra seção de importados e só percebi que tinha me confundido quando vi meu amigo, pasmo, tentando conter uma gargalhada.
Pedi mil desculpas ao deficiente físico, acabamos amigos, mas eu paguei esse mico. No meio da Cobal. Que tipo de fuga foi essa, gente? Fugir com um senhor paralítico que eu nunca tinha visto na vida ia melhorar em que a minha vida? E também não vejo o fato como uma demonstração do ''inconsciente'' pra que eu fugisse do ''conhecido'' com medo de enfrentar o novo, porque, meu Deus do céu, o que eu acabara de fazer era absolutamente inédito!
Pensei que estava curada ou que, pelo menos, tinha melhorado um pouco da distração até que me peguei, de novo, esta semana, num supermercado (de novo) colocando umas alfaces no carrinho de compras de uma senhora, enquanto o meu continuava estacionado ao meu lado, com minha bolsa e guarda-chuva dentro.
Quando entendi o engano (a mulher gritava e corria atrás de mim), pedi desculpas e peguei minhas alfaces de volta. Mas peguei também o guarda-chuva dela, que era prateado, como o meu. Já estava longe quando a vi suplicando:
- Meu guarda-chuva! Meu guarda-chuva!
Só então percebi que estava carregando dois guarda-chuvas prateados. Poxa, meu Deus, foram anos de análise pra roubar o guarda-chuva dos outros? E ainda por cima daqueles de camelô, que duram uma semana, porque depois disso eu os perco ou eles se desfazem...
Tenho também um problema seriíssimo de direção. Uma falta de orientação. Todo mundo diz: ''Freud explica... Distração, desorientação, é tudo o mesmo pacote...'' Então por que não explicou até hoje, fazendo-me chegar ao ponto de fingir um sotaque de paulista com todos os erres e esses pra perguntar a um passante pra que lado é a Av. Atlântica? Eu, que sou carioca da gema, que morei anos em Copacabana, que a conheci como a palma da mão... Será que foi ''fuga'' voltar a Copacabana, assim como quem volta à infância depois de ter-me perdido na Lagoa?
Paro na rua, tento me orientar, me concentro, penso que não sou idiota e, finalmente, suando frio, lá vem o sotaque de paulista:
- Moço, por favor, onde fica a praia?
O transeunte me olha abestalhado. Claro que me olharia mais espantado ainda se eu não estivesse em Copacabana, que lembra, ligeiramente, um hospício. Um hospício delicioso e divertido, mas vamos combinar que aquilo não é normal... No meio da calçada, perto do mural de azulejos do Millôr, em homenagem ao frescobol, quase tropecei numa cabeça. A cabeça de um manequim de mulher, pousada numa toalha de mesa, rodeada de perucas Canecalon. A ''cameloa'', dona da cabeça e das perucas, colocava vários modelos na cabeça do manequim (que sorria), depois mandava as interessadas nos cabelos experimentarem as perucas fornecendo-lhes um pequeno espelho. Parecia uma cena de circo, aquela cabeça rindo, sem corpo, ou uma mulher escalpelada...
Correndo na calçada, um negro forte gritava, sozinho, como se estivesse num bloco de escola de samba:
- Dirceu, Dirceu, Dirceu, o bicho te comeu!
Entrei também no Shopping Sampaio, que tem de tudo: desde azeite português a tesourinha de unha, imagem de santo, ventilador...
Um mendigo sentado no chão, em frente ao Unibanco tentou agarrar a minha canela pedindo dez centavos. Encontro uma amiga ''analisada'' que me convida pra um café no delicioso Cafeína. Mas achei que já bastava de bater perna e preferi voltar pra casa. Ela diagnosticou:
- Fuga.
Graças a Deus, porque meia hora depois começou o tiroteio, ao qual assisti pela televisão, quase engasgando com o congelado do Sabor de Pecado.