Desses 450 anos de São Paulo, um eu passei trabalhando lá. Era manequim da
Claudia, junto com a Bia Vasconcellos, também do Rio, e a Mazi, de São Paulo.
Íamos pra São Paulo todas as semanas, ficávamos num hotel perto da editora, jantávamos nos restaurantes da moda, íamos a boates (de cujos nomes já não me lembro: será Ton-Ton Macoute o nome de uma delas?) e o que era maravilhoso: viajávamos pelo mundo fotografando para a revista.
Foi na editora Abril que conheci Alessandro Porro, repórter italiano recém-chegado, que tinha vindo ao Brasil fotografar as ''cobras pelas ruas do Rio'' para um jornal da Itália. Quando viu que não tinha cobra nenhuma, apaixonou-se pelo país e nunca mais saiu daqui, até a morte. Ficava um pouco de babá da gente, tentando fazer com que as manequins dormissem cedo para aparecerem lindas nas fotos, sem olheiras, no dia seguinte.
Claro que fugíamos dele e voltávamos de madrugada pro hotel, pé ante pé, paranóicas e perseguidas. Até morrer me dizia que havia sido ele que me escolhera para sair na primeira capa da revista, depois do concurso para manequins. Era o responsável por eu ter ganho. E dizia também:
- Eu nunca erro. Fui eu que escolhi Sofia Loren para um filme, na Itália, quando ela não era conhecida...
Lou Parrela era o fotógrafo, americano distraído, que viajava com a gente.
Uma vez fomos à praia no Rio e ele colocou o relógio dentro do mocassim para não perdê-lo nas areias do Arpoador. Na hora de ir embora, pegou a toalha, sacudiu-a bem, vestiu a camiseta e, esquecendo-se do relógio, bateu fortíssimo com o sapato na amurada da praia pra tirar a areia, despedaçando o relógio (caríssimo) em mil pedaços. Nunca vou me esquecer de sua expressão tentando catar as pecinhas de ouro na areia, até que tivemos um acesso de riso e fomos tomar um chope no Lucas.
Fomos pra Los Angeles fotografar nos estúdios da Paramount. Às manequins da revista juntaram-se também as da Rhodia.
Uma noite, fomos a uma festa com produtores e artistas. O Trini Lopez ficou paquerando a Mila Moreira, que era manequim da Rhodia, e eu conheci o Bob Wagner. Conversei um pouco com ele, quer dizer, nada que excedesse a ''Ah, Brasil! Oh! You are brazilian? Oh!!!''
E, pra terminar a falta de assunto, ele me deu um cartão do seu escritório. Guardei-o na bolsa e fui conversar com o Sergio Mendes e outros músicos brasileiros recém-chegados.
Quando passei, antes de dormir, no quarto da Mila Moreira pra comentar a festa, o telefone tocou no apartamento dela e eu atendi.
- It's Trrrrrrrrriiiiiiiiini!!!!! - respondeu um som do outro lado, fazendo-me tirar o ouvido do gancho pra não ficar surda.
Só da terceira vez entendi que era o Trini Lopez. Mila, diante de mim, fazia sinais de que não atenderia o telefone nem morta.
No dia seguinte, resolvi dar uma volta a pé pela cidade, coisa que tiro de letra em qualquer lugar do mundo. Já estava bem longe do hotel quando parou um carro de polícia. Um deles saltou e perguntou o que eu estava fazendo andando a pé.
- Passeando... - respondi.
- Cadê o seu carro?
- Não tenho carro...
- Ninguém anda a pé em Los Angeles.
- Onde estão os seus documentos?
Eu tinha saído com a bolsa da véspera, sem documento nenhum.
- Ah, sem documentos em Los Angeles?...
''Pronto'', pensei. ''Estou frita. A pé e sem documentos!!!'' Pra piorar a situação, disse que era manequim brasileira e que estava trabalhando em Los Angeles. Outro guarda saltou da viatura e olhou para mim. Bem, eu não tinha cara de bandida, mas, afinal de contas, brasileira, andando pela rua, sem lenço, sem documento, ih, pegou mal...
Então tive uma idéia brilhante. Peguei o cartão do Bob Wagner que permanecia na minha bolsa desde a véspera e entreguei ao guarda, que leu o cartão, incrédulo, e o passou para o outro policial, que ficou pasmo. Os dois me pediram mil desculpas e me aconselharam a alugar um carro.
- Aqui ninguém anda a pé, senhorita!
E foram-se embora, simpáticos, dando adeus.
Peguei o cartão do Bob e voltei pro hotel, de onde nunca mais saí sem ele.