Tanto o fim de ano no campo como o início do novo ano aqui em casa foram surpreendentes. Surpreendentemente agradáveis, pra ninguém botar defeito. Às vezes você está meio de saco cheio, achando que tudo é um
déjà vu, que é melhor nem acordar porque já sabe de cor e salteado no que é que aquele dia vai dar, que festas de fim de ano são um saco, então vem Deus, resolve dar uma lição na gente e diz: ''vou mostrar pra essa gente mal agradecida como a vida é maravilhosa''.
E aí, assim, do nada, começam a acontecer coisas inusitadas. Você conhece pessoas novas, lugares novos, ou pessoas e lugares já conhecidos mudam de astral, de conceito, se transformam porque, no fundo, era você que os via de outro jeito. Enfim, Deus, quando quer, faz dessas gracinhas. Foram assim as minhas festas. Cheias de gracinhas de Deus. Tanto que até uma caixa nova de Olcadil que levei pro campo sumiu, e eu não fiquei nem aí pra ela.
Mas então entrou em cena a Telemar...
É que meu primo está dando um tempo aqui em casa e resolveu colocar uma linha extra de telefone no quarto dele junto com uma secretária eletrônica. Então liguei pra ela, a Telemar! Foram educadíssimos, finérrimos. Quer dizer, as vozes gravadas na máquina eram muito bem educadas. Todas. E olha que liguei pra uns oito números diferentes, fora quando caía a ligação.
Disseram que em 48 horas estariam aqui em casa para fazer o serviço e em meia hora vieram. Mais meia hora pra colocar a nova linha. Meu primo e eu, maravilhados. Despedimo-nos do funcionário (educadíssimo também) e eu comentei:
- Tá vendo que competência? Coisa do Lula... E você que votou no Serra, lembra?
Meu primo emburrou e eu fui ligar da minha antiga linha pros amigos, pra dizer que voltei do campo etc... Tudo mudo! A nova linha, um biju; mas a velha tinha ficado muda, provavelmente de ciúmes da outra. Liguei outra vez pra Telemar e eles vieram de novo! Rápido! E consertaram a linha velha. Dei graças outra vez ao governo Lula pela competência da operação. Meu primo emburrou novamente até perceber que eles não tinham ligado sua secretária eletrônica e aí eu também me dei conta de que a internet estava em curto. Saí do sério, fiquei maluca.
Liguei os 450 números que a Telemar, educadamente, me pediu na gravação, e ainda tive de agüentar meu primo dizer:
- Quem mandou votar no Lula...
Implorei à voz gravada que mandasse alguém, que eu era jornalista, pelo amor de Deus, e ela respondeu: ''a Telemar agradece.'' Mas agradece o quê? Ter-me enlouquecido? Ter-me tirado do sério? Cadê meu Olcadil, droga! Vou mandar a crônica como? Meus vizinhos não estão...
Vou a um cyber-café. Nunca tinha me metido em nenhum antes. Achei estranho que a média de idade das pessoas ali, fora o instrutor, fosse de dez anos!!! DEZ ANOS! Ficaram todos me olhando extasiados, como se eu fosse uma pedófila. O que é que eu poderia querer ali?
- Escrever um texto - disse ao único funcionário, espécie de babá que toma conta de umas 300 crianças que jogam os mais variados games, sempre com muita arma e muito tiro, muita morte, aos gritos de ''papa frag!'', aos palavrões.
E como se não bastassem esses 300 computadores atirando, defronte a eles havia uma televisão ligada em Malhação. Aos berros, naturalmente. O funcionário me mandou sentar em frente a um computador e ligou a internet. Abriu-se diante de mim a possibilidade de milhares de sites. Quase liguei pra Cora Rónai, de desespero, mas o funcionário estava mais perto e perguntei:
- Como é que eu entro no Word?
O homem disse que não tinha a menor idéia, que era só segurança e nunca tinha ouvido falar em Word. Peguei meu dinheiro de volta. Fui pra casa, bufando. A Telemar não passou mais. Enjoou de mim.
Meu primo tenta ligar a sua secretária eletrônica:
- Oi, querido! - diz ele, deixando recado pra ele mesmo.
Depois liga de novo pra ver se gravou o recado e... nada! Mas nada funciona mais nesta casa de loucos. Quando contei da minha aventura no suposto cyber café, meu primo deu gargalhadas e me explicou que eu entrara numa Lan House. Concluí que isso é uma espécie de creche moderna, e ele continuou a explicar que é lá que os newbies participam de counter-strikes, onde TRs lutam contra CTs e que em Dallas, por exemplo, o vencedor pode receber US$ 100 mil e, na Itália, uma Ferrari, que os meninos aprendem a dirigir rapidinho...
Depois dessa explicação sucinta, fui tomar um copo d'água pra me recompor, pensando que o máximo que a gente ganhava no jogo de víspora no colégio era um saco de bala de bonequinho pra chupar quando crescesse, esperando a Telemar...