Não sei o que veio antes: os cortes rápidos dos filmes e das séries de televisão, ou o novo pique da cabeça da gente. O fato é que agora penso do jeito que é editado o
Sexo frágil, por exemplo. Só que não tenho um bom editor, como o Guel Arraes, e o meu pensamento vai e volta me deixando confusa... Tá difícil editar minha biografia. Pra começar, se eu tivesse um bom editor, deixava pouquíssimos flashbacks, que, aliás, caíram em desuso, e agora eu entendo por quê: atrasa muito a vida da gente... Flashbacks, com raras exceções, são um saco! A gente fica pensando que podia ter feito diferente, fica querendo tirar e pôr, mas aí, já foi, não se tira nem põe. Ainda mais que a minha biografia começou a ser, praticamente, filmada, isto é, com direção, quer dizer, depois da infância, na época da
Nouvelle Vague, do Cinema Novo, quando as cenas se arrastavam como em
Deus e o Diabo, onde o Geraldo Del Rey levava metade do filme carregando uma pedra. Nessa época, a Delphine Seurig se ausentava do presente e passava o filme todo se lembrando do ano passado em Mariembad...
Ai! Como eu queria cortar as pedras da minha biografia, e todos os Mariembads que me puxam pra trás! Não é só porque vivi essa época que o meu ''filme'' tem que ser assim... Tudo bem. Era assim. Pensava-se assim. Mas agora, se pudesse cortar a biografia, eu cortava, e com as sobras, dava pra fazer dez filmes. Chatos, é verdade, tristes, ninguém tá negando, só masoquista ia querer ver aquela aporrinhação, mas que dava pra fazer dez filmes, dava. Mas eu não faria. Nunca! Jogava tudo fora! Montes de celulóides desperdiçados, no lixo. Ai, que alívio! Queria ser leve como o Sexo frágil, colorida... Não ia deixar nada cinza, longo... Ah, eu com uma tesoura na mão!... Na próxima encarnação quero ser editora de televisão...
O problema são os livros... Porque a cabeça da gente fica assim também pra ler! Estou lendo uns quatro livros ao mesmo tempo. Estou adorando todos mas não consigo me fixar em nenhum! Acho que esse é um hábito que se generalizou no mundo... Falo com meus amigos e está todo mundo nessa. Deve ser essa ansiedade que acompanha a todos agora, nessa fase de antidepressivos. Porque, puxa, entre o Cinema Novo e o Sexo frágil, deveria haver um equilíbrio! Meus marcadores de livro agora são como controles remotos. Fico zapeando com eles de livro em livro. Quando falo com as pessoas elas me dizem que tambem estão assim: zapeando livros! Que será que vai acontecer com a gente depois? Os filmes vão ter abertura e the end? E os livros? Serão cada vez mais pockets? E o prazer de ler, de ''viajar'' na história, ficou aonde?
Antigamente a gente se deixava ''viajar''... Agora, no meio da história, a cabeça fica atormentando e os cortes que ela faz são de péssimo gosto. No melhor da trama corta pra: ''onde é que eu vou arranjar dinheiro?'' Lê meio capítulo e pensa na faculdade da filha. Mais duas páginas e vem a conta do telefone, do celular. Mais página e meia, o plano de saúde... Olha, tá difícil se concentrar... Aí fica parecendo que a culpa é do livro, coitado, que só tá ali pra dar prazer... Quem sabe outro livro, falando de outro assunto? Pronto. Começa a zapeação, como se no terceiro parágrafo a gente não se lembrasse do IPTU... Aí pára o livro pra tomar o anti-depressivo, não lembra mais do que leu, liga a TV. Zapeia, zapeia, puxa, essa televisão não tem nada! Aí passa pelos telecines, assiste-se a um pedaço do Canal Brasil pra ver os retratos dos amigos quando jovens , aí enjoa de ver os amigos moços e vai ver bicho no Discovery até o leão arrancar a perna do pobre veadinho indefeso e a gente desligar a televisão e tomar um lexotan pra dormir. Pronto. Já deu. The end. Corta.
Olha, já vi tempos mais amenos, quando vovó passava meses lendo Reinações de Narizinho pra mim e pra minha irmã e não tínhamos que pagar conta, só viajar, sem cortes, com Narizinho, Pedrinho e Emíla, diretamente pro céu.