E-mails e telefones
Shopping JB Online
Home
Tempo Real

Colunistas
Coisas da Política
Residências de tolerantes

Villas-Bôas Corrêa
Bingo da corrupção

Informe JB
Teatro

Cartas
Juros

Horóscopo

Supersônicas
Sem gravidade

Gente
Radical... nem tanto

Charge Online

Márcia Peltier
Pau nele

Leonardo Boff
Transgênicos, ainda não

Nas Páginas da História
19 de setembro no JB

Informe Econômico
Só para emergências

Boechat
Corda bamba

Gilberto Amaral
OAB x TCU

Maria Lucia Dahl
Agruras e delícias de viver com o semelhante

José Sarney
Adeus às armas

Fernadão
Renovação garantida

Hildegard Angel
Strip ao lado da igreja fecha nos dias santos



Agruras e delícias de viver com o semelhante


Oscilo entre adorar e detestar morar sozinha. Esse desequilíbrio começou quando me separei do meu primeiro marido. No começo, o alívio. A sensação de liberdade. De ocupar sozinha uma cama inteira de casal. Dormir de meia. (Sempre morri de frio nos pés.) Ver o que quisesse na televisão. Desligá-la quando bem entendesse pra ler um livro sem ter que aturar aquele som insuportável. Abraçar todos os travesseiros. Dormir de camiseta furada. Acender a luz no meio da noite pra ler mais um capítulo. Ligar para aquela amiga que não dorme nunca e fofocar. No dia seguinte, dispensar a empregada, tomar café sozinha, na bandeja, na hora e no local que quisesse e ler o jornal sem ter que falar com ninguém. Não pensar em cardápio. Nem pro almoço nem pro jantar. Pedir comida natural, comer congelado do Riva ou o que tivesse vontade, quando tivesse vontade. Não trancar portas e ficar horas na banheira sem dar satisfações, nem ter que gritar lá de dentro que ''não morri, só estou curtindo!''. Não ter horário pra nada. Sair quando desse na veneta. Enfim, viver intensamente o sonho de outra vez ser solteira no Rio de Janeiro.

A coisa só pegou quando apareceu a primeira barata. De chinelo em punho ameacei o bicho, imaginei com horror o barulho de suas vísceras se esmigalhando, vislumbrei suas entranhas se abrindo, observei seus bigodes desorientados em busca de uma salvação, suas patas me suplicando a vida e me senti uma assassina. Foi quando finalmente pensei:

- E se ela tiver sido minha avó numa encarnação passada?

Joguei o chinelo longe e procurei espantá-la o mais gentilmente possível. E quando ela, rapidamente, entrou debaixo da cama, peguei meu travesseiro e o cobertor e me mudei pro escritório, no andar de cima, morrendo de saudades da vida de casada.

Depois foi o carro que morreu, assim de repente, na esquina. Morreu de quê, meu Deus? Ainda ontem estava tão bem. Então chamei um amigo, porque carro, gente, é coisa de homem. Que me desculpem as feministas, mas há coisas que são de homem, outras, de mulher. Carro, barata, ladrão, são coisas pra macho, o resto a gente encara. Se bem que, diante do primeiro fantasma que apareceu lá em casa, liguei pro meu primo, que veio em meu socorro, e também ficou paralisado quando o viu. Pra ser mais precisa, viu, não - ouviu uma coisa inexplicável bater em todas as portas ao mesmo tempo como se fosse derrubá-las. Minha filha pequena chorando, o cachorro rosnando, um sufoco.

Acho que foi depois disso que casei de novo. E achei tão bom compartilhar a cama de casal, ver filme juntos na televisão, comentar o livro, tomar café da manhã na varanda, trancar a porta do banheiro e sair de dentro dela toda bonita, sem camiseta furada nem meia de lã!...

Até que tem uma hora que não agüento mais. Volto à fase camiseta, meia. Então tentamos a solução mágica: morar em casas separadas. Mas aí chegou uma hora que também não deu. Voltou a saudade do silêncio, o horror de ter que ver futebol (porque homem não fica sozinho, né?), o pavor de ouvir os gritos de ''gol'' ou de um palavrão sonoro. Então inventamos a ''segunda sem lei'', um dia da semana em que cada um sairia com os amigos que quisesse, pra fazer o que quisesse.

Mas aí veio o ciúme:

- Saiu com quem? Fez o quê?

E homem nunca diz a verdade, né? Deve ser um defeito de fábrica... Então, pensei: afinal de contas, será que mulher foi feita pra viver sozinha ou com o seu semelhante? Porque eu agora estou numa fase de encontrar semelhantes, mas na rua. Acho que porque semelhante, mas semelhante mesmo, ali na batata, eu nunca encontrei não. Além do que atualmente não estou me assemelhando a ninguém, voltei pra fase camiseta-meia e um caquinho de Lexotan pra dar um distanciamento brechtiano no mundo. Um paraíso. Se tivesse que ver futebol, me matava.

Quando você mora sozinha, também tem o seguinte: as coisas não saem do lugar. As Bics permanecem ao lado do telefone, os óculos, na gaveta, o jornal, na sala, o xampu no box, a internet fica livre, o telefone, no gancho. Mas, quando a gente tem um semelhante, ele gosta das mesmas coisas que a gente, precisa das mesmas coisas que a gente, na mesma hora que a gente, e aí não há Bic que resista, internet que agüente, xampu que dê conta de um semelhante...

Ando numa fase pra dentro. Adorando ficar quietinha. Está tão bom que as baratas me respeitam, vão direto pro escritório, ao invés do quarto, e os fantasmas têm sido delicados e não esmurram mais a porta... Outro dia um deles, assim que cheguei em casa, sem saber o que ler, jogou o Tesouro da Juventude, que foi da minha mãe, no chão, aberto em Alice no País das Maravilhas. Será que algum semelhante faria essa gentileza em vez de assistir a futebol?


[19/SET/2003]


   Home > Colunas > Maria Lucia Dahl

Tempo Real | Brasil | Economia | Esportes | Rio | Internacional | Colunas
Internet | Caderno B | Domingo | Programa | Musicalidade | Viagem | Acelera
Idéias | Horóscopo | Especiais | Opinião | Editorial | Charge | Cartas




Aumentar letrasDiminuir letrasVersão para imprimirEnviar matéria

Promoções

Serviços




Área do leitor



Assinaturas


Rio:
(21) 2323-1000

Demais estados:
0800-707-2000

Horário de atendimento:

• Segunda à sexta-feira de 6h30 às 18h

• Sábados, domingos e feriados de 7h às 14h