Meu amigo, desempregado, se entediava barbaramente em casa. Quando acabou a última torta de maçã do Sabor de Pecado, teve a idéia de telefonar pra uma agência de massagens. Veio um rapaz simpático. Chamava-se Elias. Meu amigo só queria conversar. Um tédio... Uma solidão...
Ofereceu-lhe um uísque. O rapaz não bebia em serviço. No meio daquela falta de assunto, meu amigo contou que era cenógrafo. O rapaz não tinha idéia do que isso significava. Meu amigo explicou o que era um cenário e como os fazia para a televisão. Pronto. Tinha pronunciado a palavra mágica. O rapaz aceitou o uísque. Afinal de contas, estava na casa de um artista. Sentiu-se à vontade. Sentou-se na melhor poltrona e perguntou pelos seus ídolos. Depois quis saber se não tinha emprego pra ele.
- Fazer o quê? - perguntou meu amigo, espantado.
- Massagem... Falar nisso, o senhor não quer umazinha no pescoço?
- Não me chame de senhor. Não se preocupe. Vou pagar direitinho a sua hora mas não quero massagem, só quero conversar.
O rapaz aceitou outro uísque, já que não se achava muito bom de conversa. Depois descontraiu-se, contou da vida difícil que levava no subúrbio dando um duro danado na agência de Copacabana pra ganhar uma comissão ridícula... Coisa humilhante... Rachava o aluguel com um colega de trabalho. No aniversário da noiva teve que fazer um empréstimo e ainda tinha que mentir pra mãe, mineira, dizendo que estudava medicina...
Meu amigo escolheu um vídeo pra verem juntos. Era um musical da Metro. No meio do filme o rapaz estava aos soluços. Meu amigo escondeu a garrafa de uísque. No final do filme, o rapaz assustou-se com o adiantado da hora.
- O que é que eu vou dizer na agência, meu Deus do céu? Seu Fidélis me mata!
- Pago as horas extras - consolou meu amigo.
- Não desmarquei os outros clientes... Um dia cheio, o senhor sabe, com essa chuva...
- Pare de me chamar de senhor - disse o dono da casa, estendendo-lhe o dinheiro.
O rapaz dirigiu-se ao elevador alarmadíssimo com a hora.
Meu amigo fez mais um uísque e depois dormiu o sono dos bêbados, acordando no dia seguinte com um estranho telefonema matinal.
- Seu Fidélis? Não, não conheço ninguém com esse nome. Que Elias, meu senhor? - e sentou-se na cama, fazendo um esforço de memória um tanto lesada pela ressaca.
- Agência? Claro, lembro... O que é que tem? O quê? O senhor ficou louco? Eu não mato uma mosca, imagina se eu ia bater em alguém! Aliás, basta olhar pro rapaz e pra mim, aquele homenzarrão de dois metros de altura! O Elias foi parar no hospital? Ora, meu senhor, deve ser um engano... O quê? O senhor quer conversar comigo pessoalmente? Tá bom, pode passar aqui embaixo no bar... - respondeu meu amigo, louco pra tomar uma cerveja pra melhorar a ressaca.
Às dez em ponto da manhã Seu Fidélis se aproximou, muito sério, com uma pasta na mão. Dir-se-ia um crente. Sentaram-se em desconfortáveis cadeiras de alumínio coloridas que reverberavam ao sol queimando os últimos neurônios do meu amigo, já consumidos pela bebida. Meu amigo ajeitou os óculos escuros.
- Olha aqui, Seu Fidélis, não é do meu feitio bater em ninguém. Olha bem pra minha cara.
- Quem vê cara não vê coração - rebateu Seu Fidélis, continuando:
- Não é a primeira vez que isso acontece lá na agência. Essa profissão tem desses riscos. Mas o senhor exagerou! Mandar o rapaz pro hospital! Nem pôde atender os outros clientes...
- Hospital? - perguntou meu amigo num esforço de raciocínio começando a compreender que Elias tinha inventado aquela história pra se eximir dos compromissos faltados em prol do filme musical na TV.
- Olha aqui, Seu Fidélis, vamos acabar logo com isso. Nunca bati em ninguém, deve haver um engano, de qualquer maneira estou disposto a qualquer coisa pra me livrar do senhor e desse encontro kafkiano. Me diga, por favor, o que o trouxe aqui? Dinheiro?
Seu Fidélis se ofendeu. De jeito nenhum queria dinheiro.
- Então me diga, pelo amor de Deus, o que é que o senhor quer de mim?
Seu Fidélis baixou os olhos e, numa voz velada, respondeu timidamente:
- Eu quero apanhar também...