Vivemos uma geração baseada na tecnologia (uma das únicas vantagens do século 21) e quem não se insere nela fica à margem da vida e sujeito a pagar mico. Eu bem que tento. Desde garota que já começava a aprender a dirigir o carro do meu pai, com o Deusdedith, porteiro do meu prédio na Av. Atlântica. Depois me matriculei na escola de direção do Seu Marinho pra aprender a dirigir jipe, mesmo papai dizendo que os americanos iam acabar com as mudanças dos carros e que em bem pouco tempo só haveria automóveis hidramáticos. Mas eu gostava de fazer mudança. Aliás, sempre gostei. Gosto de mudar e não mudo mais porque o preço das coisas já não me permite muito. Mas naquela época era mole. Aprendia-se a dirigir, a datilografar no Curso Ted e não tinha mais muita coisa, não.
Tava limpo. Sabendo dirigir e datilografar era-se uma mulher moderna, inserida no contexto. Os aparelhos domésticos eram sempre os mesmos e o máximo que se tinha a fazer era apertar um botão ou, pra ser mais precisa, girá-lo.
A geladeira durava 20 anos, às vezes passando de geração pra geração. A lá de casa era eterna. Ninguém pensava em substituí-la. Era gorda, grande, pesada, branca, dir-se-ia uma mãezona sempre disposta a oferecer suas entranhas. Elas (as geladeiras) vinham para ficar. Eram pesadas, ocupavam o seu espaço, faziam parte da família. General Electric, chamava-se. GE para os íntimos.
O fogão Cosmopolita também era para sempre. De oito bocas, sempre ávidas a se acenderem nutrindo-nos carinhosamente de comida quente. Quem é que em sã consciência pensava em mudar de fogão? Por quê? Era como os casamentos. Com a diferença que todos se entendiam muito bem com suas geladeiras e fogões, mas com os casamentos... A geração da minha mãe não mudava de mulher ou marido porque era proibido pela sociedade. Não porque preferisse aquele par. O casamento tinha que ser eterno, diferente das máquinas, que eram. Mas como tudo o que era sólido desmanchou-se no ar, geladeiras, ar-refrigerado, máquinas de lavar e casamentos duram muito pouco hoje em dia, começando a dar defeito mais ou menos a partir de um ano ou dois, fazendo os envolvidos no assunto trocar seus parceiros ou máquinas cada vez mais rápido por um modelo mais novo. Ninguém mais tem tempo de se afeiçoar a uma Enxuta, por exemplo, novinha, bonitinha, mas que quando você menos espera, apronta uma cilada, saindo de linha sem avisar. Ninguém saía de linha antigamente porque ficava mal visto. Hoje em dia, a expressão sair da linha ficou tão antiga que só existe no dicionário.
E essa instabilidade que se vive agora exige um tremendo jogo de cintura. Porque as máquinas o desafiam o tempo todo com tecnologias de última geração, mostrando todo o tempo que as coisas mudaram e que você ficou pra trás. Esperei uma semana por um cartucho de impressora e quando ele chegou era um perfeito estranho. Fez capricho, emperrou, tentei colocá-lo do jeito que colocava o antigo, mas ele, nada. Na dele. Não deu uma dica. E como, em geral, isso acontece aos domingos, não tinha a quem chamar e fiquei o fim de semana inteiro olhando pra impressora emperrada, mal humorada, fazendo beicinho, incapaz de me dar uma pala, de me orientar.
O programa de e-mails tem de ser trocado sei lá de quanto em quanto tempo, fui informada quando liguei pro meu servidor.
- Outlook o quê? - perguntou o técnico do outro lado do telefone, dando uma gargalhada. - Mas minha senhora, tem que mudar a configuração!
A secretária eletrônica, que costumava dar cinco toques até você vir atender, dando tempo pra gente se locomover até ela, passou a dar três e agora um toque, acompanhando o tempo do relógio, que também encolheu. Então, se você estiver no banho, por exemplo, tem que sair pingando pra atender a secretária (se for urgente), porque hoje em dia você está aí para servir às máquinas e não elas a você. Você que se habitue ao tempo delas, às mudanças, aos modelos, às cores. Tem-se que ficar eternamente atento, esperto. É um desafio. Como uma gincana muito rápida ''agora isso, agora aquilo, vamos lá, anda!''. Se a gente não se dá conta de que as coisas mudaram, fica como uma senhora que vi na boca do guichê outro dia, tentando comprar ingresso pro cinema. Quando a bilheteira perguntou:
- Meia?
Ela respondeu, lisonjeada:
- Imagine... Tá me achando com cara de estudante?
- Não, de idosa - retrucou a bilheteira.
Coitada da senhora, meu Deus, estava distraída e não se deu conta de que já tinha se desconfigurado há algum tempo, como o meu Outlook Express!