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O Centro da cidade

Desço no metrô Uruguaiana e despeço-me de uma amiga combinando de nos encontrarmos dia 15, às 15h, em frente ao Méridien, na passeata pela paz. Uma senhora meio atordoada tenta acertar o passo com o meu dizendo que não vai adiantar nada marcharmos porque a paz no planeta já era. Respondi que é mesmo difícil achar que alguma ação surta efeito contra a obsessão de mercado do mundo, o olho do Bush no petróleo, na água, na Amazônia, mas, eu, como cidadã, como ser humano, quero, preciso, me manifestar contra esse horror nem que seja como uma forma catártica de tratamento pra não pirar. Não sei o que a mulher entendeu, mas pegou o gancho da palavra pirar e começou a me contar as maravilhas do seu antidepressivo de última geração. E sorriu um sorriso enigmático, misto de Mona Lisa com bicho-preguiça.

Passamos pelo camelódromo da Rua Uruguaiana, tropeçando em imãs de geladeira, Barbies com enxovais, canetas, óculos, bolsas e carteiras Vuitton, cuscus, água de coco, biquínis, camisetas, camisinhas, bonés, santos, chumbinhos pra matar ratos, pais, avós, tios, tudo ao som de música sertaneja vendida em CDs piratas e da mulher falando.

Um mendigo com pernas pede um real pra comprar um lanche. Um outro sem elas corre entre as nossas em cima de uma espécie de skate gritando ''Ôba! Ôba!'' Ôba por quê? Pergunto aos meus botões... Uma menina de rua dirige-se à senhora do antidepressivo tentando se aproveitar da sua aparente simpatia. ''Vovó, me dá um dinheiro?'' ''Não dou!'', grita a mulher, inesperadamente, fazendo o povo virar a cabeça, uma expressão furiosa no lugar do antigo sorriso educado. ''Vovó é a sua mãe, ouviu bem? A sua mãe!'' O que me fez pensar que o tal calmante não deve ser tão eficiente assim. ''Essas meninas de hoje em dia não tem a menor educação, não acha não? Já detesto que me chamem de tia, agora me chamar de vovó...?'' ''Acho mesmo é que elas não têm nenhum tino pra negócios.'' Comento apertando o passo entre os mendigos com perna e sem perna e sumindo na multidão.

Pego o elevador errado no prédio da Presidente Vargas e desço 35 andares enganada pela pressa. Uma mulher entra no 34º e, de repente, faz com os dedos mindinho e polegar a réplica de um celular inexistente. O elevador lotado para em cada andar. Ninguém desce. A mulher disca um número e começa um diálogo no celular inventado. ''Alô? Querido? Tudo bem? Jóia... Saudades... Eu já tô indo pra aí, viu, fofinho? A que horas? ? Hum...'' E deixando o ''celular ligado'' esperando, ela pergunta ao ascensorista: ''quanto tempo vai demorar, moço?'' O homem, boquiaberto, olha pras pessoas pedindo socorro. E diante do silêncio generalizado ela retorna ao seu ''celular'', derretida. ''Não demora nada, querido...'' E mudando subitamente de tom grita pra dentro do seu telefone imaginário: ''olha aqui, Jurandir, se aquela vagabunda estiver contigo eu parto a cara dela, ouviu bem? Eu parto a cara dela!'' O ascensorista grita: : ''térreo!'', pra alívio dos passageiros, que somem, apressadíssimos, em todas as direções, enquanto a mulher guarda cuidadosamente o seu ''celular'' na bolsa e ajeita o cabelo.

[14/FEV/2003]

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