''Outro dia vi um filme que tinha um cão farejador, sabe como é? O cachorro fuçava a roupa e as sacolas de todo mundo. Era um bisbilhoteiro! Depois de escarafunchar os passageiros (a cena era em um aeroporto), o cachorro não queria parar e ficou cheirando os policiais, bufando e babando daquele jeito dele. Aí não teve jeito: fiquei o filme todo rindo sozinha. Era o cachorro que me lembrava você.''
A menina triste de olhos verdes mandou essa na minha fuça ontem antes de dormir. Depois gargalhou alto, esticou os braços num espreguiço, me olhou muito séria e se recolheu aos seus aposentos. Deixou o cronista com mais essa atravessada na goela. Entender mulher não é moleza - e não é de hoje, que o diga Dom Pedro III. O problema já virou até papo de cientista. Na semana passada, um consórcio internacional divulgou com estardalhaço que o cromossomo feminino X é ''definitivamente o mais extraordinário no genoma humano em termos de seus padrões hereditários, de sua biologia única e da sua associação com doenças humanas''.
Depois de 12 mil anos de muxoxos, beicinhos, variações de humor e comportamentos absurdos como: abrir a porta de carros em movimento, chorar vendo comédia romântica, enjoar sem motivo aparente e brincar com os dedos dos pés; comprovou-se cientificamente que as mulheres são ''muito mais variáveis do que se imaginava e que, quando se trata de genes, são mais complexas que os homens''. Faltou dizer que as moças são mais complexas quando se trata de qualquer assunto, não apenas genética. A conclusão não é novidade para nenhum vassalo deste planeta com pelo menos uma fêmea no currículo. Os cientistas internacionais poderiam ter gasto melhor seu tempo pesquisando fusão a frio, efeito placebo ou representando o samba de mulatas em equações complexas de trigésimo quinto grau.
Volto ao cachorro, antes que eu mesmo comece a babar no jornal. ''Era o cachorro que me lembrava você.'' Fiquei matutando caninamente na frente do computador. Não há dúvida de que escrever guarda alguma semelhança com o farejar do cachorro. O sujeito vive inescrupulosamente fuçando o mundo, a bunda e os próprios pensamentos em busca de alguma idéia que preste. Quando acha, abana o rabo e a caneta no papel.
Não obstante a curiosidade deste cronista sobre os menores assuntos e as maiores parvoíces, o cão que escreve precisa estar com o olfato ligado ao mundo. O problema é que, muitas vezes, o entorno sai perdendo. Por exemplo: hoje pensei em escrever uma crônica, infelizmente fantasiosa, sobre nosso prefeito e seu secretário de Saúde, mauriçolas e incompetentes, procurando atendimento em um hospital público da cidade. Mas a pauta caiu com a frase da menina triste de olhos verdes que me foi puxando entre outras idéias e por aí vai - e foi. O ''parem as máquinas'' do cronista-cão pode ser um chope bem tirado, uma folha caindo sobre uma poça d'água, um moleque tocando flauta dentro do ônibus ou a menina - sempre a menina.
Dizem que cada ano dos cachorros vale por sete. Um cão com dois anos é um adolescente e uma cadela com cinco é uma balzaquiana. No seu relógio, cada segundo tem intensidade sete vezes maior. O passeio de 15 minutos do cachorro dura, para ele, uma hora e 45 minutos. Quando a família viaja no feriadão, o cão mastiga chinelos e rói cadeiras com muita justiça: não deve ser fácil ficar trancado por um mês. Na segunda-feira, bronca e festinha. E o bicho dá voltas em torno de si, pula e late alto - comemora eufórico. Depois, deita no chão frio de azulejo e dorme um sono de dias, sonhando frangos de padaria em branco e preto.
Quando estou com a menina triste de olhos verdes, também é assim. Nosso primeiro beijo durou dois minutos e 23 segundos. Para mim, 16 minutos e 40 segundos. Depois nos olhamos calados por 30 segundos. Para mim, três minutos e meio. Quando vamos ao cinema e ela, antes de sair, pinta os olhos e se arruma na frente do espelho por dez minutos, a minha ampulheta canina marca uma hora e dez minutos de espera. Por dentro, meu relógio corre acelerado, segue o ponteiro do cachorro, sua pressa e intensidade inumanas.
Vai ver é por isso que lembro o cachorro. Por trás dos olhos do cão há a certeza de que seu tempo dura mais - e de que ele dura menos.