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Em tempo


Tudo bem que o ministro tentou disfarçar indo ao Samba no Trem e tudo o mais. Mas uma coisa é inegável - o tal samba de roda da Bahia, que foi declarado patrimônio da humanidade, tem muito pouco a ver com o verdadeiro samba, o samba com letra maiúscula, sem necessidade de adjetivação, que é do Rio, sempre foi, que representa o Brasil no mundo inteiro e que é indiscutivelmente O Samba. O nosso samba. O samba de roda, com uma batida que lembra a do camdomblé, pode ser uma coisa muito interessante, de raiz, tanto quanto o é o jongo da Serrinha, mas samba mesmo, de verdade, é este que temos aqui e ponto final. E é este que deveria ter sido considerado patrimônio da humanidade.

Vi na televisão uma pesquisadora explicando as diferenças, dizendo que o nosso samba é totalmente diverso do samba de roda baiano porque a batida iorubá é diferente da batida banto, e que por isso um não pode ser considerado filho do outro. Deve ser verdade. Meu conhecimento musical e antropológico não chega a tanto. Mas minha experiência pessoal confirma o quanto o samba é carioca. Nasci no Rio e me criei gostando de carnaval, acompanho os desfiles das escolas desde os anos 60, freqüentava as quadras do Império e da Portela nos anos 70, desfilei umas dez vezes nos anos 80. Sempre, aqui no Rio, prestei atenção à batida do samba nas ruas - que estava em toda parte. Ao mesmo tempo, tenho um pé na Bahia, e um pé bem fincado, pois sou filha de pai e mãe baianos, estando cercada de baianos por todos os lados, avós, tios, primos, todo mundo. De dois em dois anos, durante toda a minha infância e adolescência, passei as férias de fim de ano na Bahia, em Salvador ou no sítio de meu avô, em Feira Velha. Adoro a Bahia. Mas nunca, em todos esses anos, ouvi batuque, nem antes nem durante o carnaval. Eram corsos, bailes, marchinhas, frevos. Tudo, menos samba.

Lembro de ter passado o carnaval de 72 na Bahia, em plena época do desbunde, com os trios elétricos já soltos nas ruas, gritando seus frevos e marchinhas. Voltei frustrada, com a sensação de ter perdido o carnaval. Não entendia bem por quê. Até que percebi. Não tinha ouvido, nem uma única vez, aquele barulho que bate na boca do estômago, que faz corpo e alma balançarem, aquele ruído sem igual que é como um imenso coração dentro de nós: a batida dos surdos. Naquela época, ninguém batia tambor no carnaval da Bahia. Hoje, até batem. O Olodum está aí para isso. Mas é uma batida completamente diferente, bem mais simples, inclusive. Não tem nada a ver com samba.

E, àqueles que insistirem na alegação de que tudo começou no samba de roda baiano, de que é uma questão de raiz, eu respondo: nesse caso, o samba é africano.


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[18/DEZ/2005]


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