Releio Isak Dinesen - ou Karen Blixen, verdadeiro nome dessa escritora dinamarquesa que escrevia em inglês. Releio seu livro
Out of Africa, editado aqui com o título de
A fazenda africana, na bela tradução de Per Johns. É uma escritora extraordinária, que aglutinava as palavras como se fosse uma feiticeira juntando os ingredientes de uma poção mágica - dando-lhes o poder do encantamento. Não tenho aqui comigo (tenho em casa) a edição brasileira, mas apenas uma em inglês, da Random House, de páginas amareladas, um pouco ásperas, de cheiro característico. Tenho com os livros, especialmente aqueles que amo - e é este o caso - uma relação física, que inclui não apenas visão, mas também tato e cheiro.
Folheio o livro. Deixo as páginas, presas pelo polegar, escorregarem uma a uma, fazendo um som de cartas sendo embaralhadas. É mesmo como um jogo. Faço isto em busca de minhas anotações e apenas susto o movimento quando dou com um trecho todo sublinhado por mim, com observações na margem. Num deles, Isak Dinesen expressa seu amor pela África, tão grande que ela parece querer deixar lá um pouco de si (aqui, em tradução minha, talvez um pouco canhestra):
''Se eu sei uma canção sobre a África - pensava - ou sobre a girafa e a lua nova africana derramando-se em seu dorso, sobre os campos arados e os rostos suados dos colhedores de café, saberá a África uma canção sobre mim? Vibrará o ar sobre a planície com uma cor que um dia usei, inventarão as crianças um jogo que tenha meu nome, despejará a lua cheia sobre o cascalho da estrada uma sombra com meu formato ou sairão as águias das montanhas Ngong voando em meu encalço?''
Um amigo meu foi ao Quênia só para conhecer os lugares onde Isak Dinesen viveu. A colina onde está enterrado Denys Finch-Hatton, o homem que ela amou. O túmulo que a própria Dinesen descreveu como sendo tão belo que era ornado por leões de verdade (''enquanto o próprio Lorde Nelson, em Trafalgar Square, tem apenas leões feitos de pedra'').
Não tenho dúvida de que a África sabe uma canção sobre ela.
Quem quiser que diga que a vida é apenas uma amontoado caótico de acontecimentos, nada restando depois da morte. Quando leio as palavras de Dinesen, quase posso ver sua sombra na areia dos caminhos, as canções em seu nome ecoando pelo continente africano. Quando leio seu livro, acredito na eternidade.