Hoje meu tema são os olhos. Olhos que me ficaram de lembrança daquele dia. Tudo o mais desapareceu, mergulhado em memórias posteriores de outros encontros e despedidas, de prazeres e dores renovados. Mas dos olhos jamais esqueci.
Lembro-me que era um domingo, embora isso não tenha qualquer importância. Mas sempre repito a mim mesma que era um domingo, para que a lembrança daqueles olhos não se transforme numa abstração, mera sensação de dor. Não. Por trás daqueles olhos havia um mundo real. Era domingo. Mais que domingo, era um dia de sol, um dia de outono em que o céu, sem nuvens, brilhava radiante, e em que os rumores do mar se faziam ouvir por toda parte. Calor, bem-estar, doçura. O mundo parecia acolhedor naquele dia, enquanto o universo seguia seu curso silencioso. E, no entanto, foi justamente o domingo escolhido para ser o dia dos olhos.
Olhos que sabiam demais.
Olhos que eram verdes, de um verde largo, alagado. Suas pupilas se tinham recolhido a pequenos pontos e a superfície em torno era muito mais que um aro, era quase um lago, quase um mar.
E foram eles que me fizeram viajar. Foram eles que me levaram a um passado que eu própria desconhecia.
Vi a menina, em seus trajes de escola. Vi quando prendeu a respiração e caminhou até a grade que separava o pátio da rua. Era hora do recreio. Do outro lado da grade, um garotinho pobre olhava para ela com olhos enormes, famintos. A menina então pegou o lanche - pão com manteiga e açúcar, preparado pela mãe - e dividiu com ele. O menino pegou o pedaço e sorriu. A menina sorriu de volta. E aqueles olhos - os dela, verdes, os dele, negros - ficaram por um instante presos um no outro, brilhando.
Foi esse o retalho de passado que me surgiu naquele instante, enquanto olhava a dona dos olhos, seu sorriso frágil, que parecia inundado já pela lassidão da dor. O que estava diante de mim, naquele quarto, era um ser etéreo, como os sonhos, as recordações. Um ser que de material tinha apenas os olhos.
Por isso eles são hoje meu tema. Porque no domingo de sol, flutuando à tona do verde aguado daqueles olhos - vi uma centelha de adeus.