Da janela, observo o catador de papel. Na calçada, ele separa os pedaços de papelão, que vai empilhando e amarrando em grandes feixes, com todo o critério. Parece extremamente concentrado. Há dignidade em seus gestos. E eu, olhando. Uma cena urbana cada vez mais comum, esta de catadores de papel, vidro ou lata trabalhando. Vendo a cena, começo a pensar no Brasil. Este nosso estranho país.
O Brasil é um dos campeões mundiais de reciclagem de lixo. O que é louvável, sem dúvida, só que não foi a conscientização ecológica que fez isso acontecer - e sim a miséria. A necessidade de catar papelão ou lata - por falta de outra opção para o sustento - transformou um imenso contingente de miseráveis em defensores do meio ambiente. Não é incrível?
Continuo pensando. É igualmente estranho que um país pobre, tão cheio de miseráveis, tenha sido também um campeão em matéria de doações para as vítimas da tsunami na Ásia. E que uma cidade como o Rio, tão assolada por mazelas urbanas e pelo medo da violência, seja a mais solidária e a mais cordial do mundo. Essa capacidade de mobilização, essa energia criativa é uma marca nossa. É disso que falava Joãosinho Trinta quando mencionava o potencial do brasileiro de fazer ''a revolução pela alegria''. A expressão é dele, desse nosso grande filósofo popular, que não por acaso se tornou célebre por sua participação no frenesi anual chamado carnaval. Tive um amigo suíço que vinha aqui de férias duas vezes por ano e não se cansava de admirar essa nossa capacidade. E havia uma coisa que ele admirava em especial, algo que a nós nos parece corriqueiro, desimportante: a facilidade com que nos tocamos. O brasileiro não tem medo do abraço.
Claro que tudo isso - essa nossa criatividade, esse jogo de cintura - é também o que nos leva ao desrespeito às leis, a parar em cima da faixa de pedestre, a se aproveitar do Estado como se fosse uma grande mãe, a não parar no sinal vermelho, às pequenas espertezas - à corrupção, em suma. Mas precisamos acreditar que se pode aproveitar essa energia para coisas boas. Fazemos isso, às vezes. Numa era cada vez mais mecanizada, pasteurizada, de relações frias, virtuais, distanciadas, bem que às vezes conseguimos dar ao mundo uma lição de sol, de colorido e solidariedade. Uma lição de abraço. Com os olhos no catador de papel lá embaixo, fico pensando se não é por isso que nossa estética de cores vibrantes - verde e amarelo - está tão em moda na Europa.
Mas de repente tomo um susto.
Hoje era dia de escrever um conto mínimo e eu fiquei aqui - filosofando na janela.