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Gato e sapato
[26/DEZ/2004]
Tenho pensado muito nele, nesse meu amigo. Certas pessoas são assim, muito tempo depois de mortas continuam conosco, nos fazem companhia. É o que acontece com esse meu amigo. Olho para algum objeto, ouço uma música - e imediatamente penso nele. É quase como se estivéssemos juntos outra vez, dando risada. Porque dávamos muitas risadas. Ele era muito, muito engraçado. E era também uma pessoa sutil, de uma delicadeza rara. Talvez por isso os gatos gostassem dele.
Todas as vezes em que ele ia em minha casa, a primeira coisa que fazia era tirar os sapatos para que minha gata se deitasse neles. Não sei se eram sempre os mesmos sapatos (provavelmente não), mas o fato é que minha gata era apaixonada pelos sapatos dele. Isso não acontecia com mais ninguém, só com esse meu amigo. Assim que ele entrava lá em casa e botava os sapatos num canto, a gata se chegava, cheirava-os, depois começava a se esfregar e terminava por dormir abraçada com eles. Nós dávamos risada. Nós sempre ríamos muito.
Talvez a gata percebesse, através de seus sapatos, a delicadeza que havia em meu amigo, essa sutileza de que já falei. Meu amigo tinha uma suavidade de gestos que os gatos sempre apreciam. Os gatos gostam de pessoas que falam baixo. Gostam de pessoas caladas, calmas. Os gatos são, eles próprios, extremamente sutis.
Por exemplo: vocês não vão acreditar, mas eu tenho outra gata (esta mora no meu escritório) que adora João Gilberto. Eu própria custei a crer, no começo. Estava um dia sentada no computador, trabalhando, e botei para tocar um disco do João, aquele gravado em Tóquio. A gatinha veio, subiu no balcão onde fica o computador e ficou imóvel, prestando uma atenção enorme. Achei engraçado, mas não liguei. Aí, no dia seguinte, aconteceu de novo. E de novo. Toda vez que eu botava um disco dele para tocar, ela vinha para perto das caixas de som e ficava sentada, paradinha, ouvindo. Até que não tive mais dúvida e concluí: minha gata gosta de João Gilberto.
Mas eu sei por quê. É pela mesma razão que a outra gata se sentia atraída pelos sapatos do meu amigo. É por causa da delicadeza.
Delicadeza, vocês lembram? Isso que anda tão em falta em nosso mundo, este mundo de cantores que cantam xingando, de baixarias expostas na televisão como postas de carne no açougue, de jornais que estampam corpos mutilados em suas páginas para nos fazer companhia no café da manhã.
Ainda bem que existem os gatos e o João. E ainda bem que, apesar de tudo, a delicadeza insiste em sobreviver dentro de nós.
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