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No meio da rua


Era um homem comum, caminhando num dia comum. Um começo de tarde no Centro da cidade, de céu acinzentado como os prédios. Nada era excessivo, nem mesmo o calor. A hora do almoço acabava e as pessoas voltavam para seus escritórios, muitas delas de vista baixa, os olhos grudados nas pedras da calçada, no meio-fio, no asfalto. E foi por isso, por causa daquela tarde tão banal, que ninguém reparou no homem.

Mas lá estava ele, na ponta da calçada, esperando o sinal abrir. Parecia concentrado, os olhos fixos à frente, imóvel, as mãos caídas junto ao corpo, uma delas segurando com força a pasta de couro preto. Escuro era também o terno que usava, de um modelo um pouco antiquado. Mas os sapatos estavam muito limpos, lustrosos, como se ele tivesse acabado de se levantar de uma daquelas cadeiras de engraxate que são tão comuns no Centro da cidade. Sim, lá estava ele. E se continuava imóvel, com o olhar parado, seus lábios, ao contrário, se moviam. Era um movimento mínimo, quase imperceptível, como se rezasse ou contasse em voz baixa o número de segundos que se passavam, à espera de que o sinal abrisse.

À sua frente, do outro lado da rua, a sinalização feita para os pedestres exibia uma diminuta mão, de um vermelho desbotado, querendo dizer ''Pare''. Logo o sinal ficaria vermelho para os carros e aquela mão se transformaria num homenzinho verde, caminhando, o que significaria ''Siga''. Ao lado do homem, muitas pessoas esperavam. E também do outro lado da rua. Na verdade não era rua, mas uma avenida larga, histórica, a principal artéria da cidade. De um lado e outro, as pessoas esperavam, as vidas suspensas, os olhares perdidos, uma ou outra conversando entre si, mas quase todas sozinhas. E o homem, aquele homem comum, mais sozinho do que todas.

E então o sinal abriu. As duas massas de pessoas, de cada uma das calçadas, avançaram. O homem também. Deu um primeiro passo, depois outro, a sola de seus sapatos lustrosos tocando o asfalto. Caminhou. Mas se no início pareceu andar no mesmo ritmo de seus companheiros de calçada, logo foi diminuindo o passo. Aquela lentidão inesperada provocou um pequeno tumulto atrás dele. O fluxo de pessoas, nos dois sentidos, foi aos poucos se abrindo e contornando o homem, cujos passos estavam mais e mais lentos. Andava como se algo o retivesse, como se uma corda invisível o puxasse para trás.

E de repente parou.

Em plena rua, no meio do asfalto, um estorvo para quem tentava atravessar a avenida. Parou e ficou imóvel. Agora, nem mesmo os lábios se mexiam. Alguma coisa dentro dele se partira, havia uma peça deslocada. Dentro de poucos segundos, o sinal ia abrir. E o homem ali - fechado para balanço.


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[31/OUT/2004]


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