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Espelho encantado


Gosto das lagoas. Gosto sobretudo de águas paradas, do cheiro de lodo que delas emana, mesmo nas lagoas mais limpas. É um odor que vem do fundo, de um sedimento que ali vive, adormecido, e que - dizem - guarda fantasmas. Talvez seja isso, esse encantamento das águas estagnadas, aquilo que me atrai.

Há pouco tempo, morreu um rapaz na Lagoa Rodrigo de Freitas. Mergulhou para pegar uns documentos que lhe haviam escorregado do bolso, subindo em seguida para respirar. Depois tornou a mergulhar - e desapareceu. Parece absurdo morrer assim, em águas mansas, rasas, de aspecto tão inofensivo. Sempre que leio uma notícia dessas fico pensando nas histórias que ouvia, quando era pequena.

Diziam que havia no fundo da Lagoa seres encantados, divindades ou sereias que usavam seus longos cabelos para enredar quem mergulhasse. De preferência, homens. Cheguei mesmo a saber de relatos de alguns que voltaram, que conseguiram escapar no último instante e que deram seu testemunho, afirmando que as águas lodosas, pesadas, quase sólidas os tinham envolvido, segurado. Que pisavam no chão e afundavam, que a lama parecia querer tragá-los como areia movediça. E que tinham tido a impressão de se ver atados por fios compridos que talvez fossem algas - mas que pareciam cabelos de mulher.

Não sei se isso chegou a sair no jornal. O mais provável é que alguém me tenha contado essas histórias. Não importa. Com elas, compus para mim mesma a mística da Lagoa, alimentando o fascínio por suas águas vidradas, seu fundo lodoso. Essa lagoa carioca, Sacopenapã, essa Rodrigo de Freitas em cujas águas límpidas nadou o Tom menino.

Hoje, quando passo por suas margens, a pé ou de carro, quando a espio de longe, de algum lugar alto, ou mesmo quando me sento num recanto, esperando a tarde cair só para ver a solidão dos remadores rasgando a superfície espelhada, sempre penso nas iaras misteriosas que talvez habitem suas águas.

Será por isso que acho a Lagoa encantada?

Talvez. Ou talvez seja por causa de tudo que a cerca. Porque a Lagoa é o espelho mágico no qual se debruça nossa cidade, essa mulher vaidosa, curvilínea e sensual que, consciente da própria beleza, sempre sorri ao se ver refletida na água.


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[17/OUT/2004]


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