Ao fim da curva onde foram erguidas as barraquinhas, avista a ladeira que dá na igreja
A mulher salta do carro, no alto da colina, e observa a Armação lá embaixo, com suas luzes de presépio. No mar calmo, os barcos dormem um sono de rede e ao fundo, longe, há a mancha escura e redonda de uma ilha. Mas na orla da baía há muita luz. Guirlandas, enfeites, barraquinhas, gente caminhando para lá e para cá, como numa festa de igreja. A mulher torna a entrar no carro. Talvez vá até lá.
Dirigindo pela ladeira de paralelepípedos, por um instante perde de vista a curva da baía e sua festa noturna. Mas, alguns minutos depois, ao fim de uma ruazinha estreita, desemboca diante do mar. Pára o carro novamente e salta. Engraçado. Não sabia que havia festa na cidadezinha naquela época do ano. Deve ser uma quermesse, conclui. Mas é uma coincidência. Logo nesse fim de semana, o fim de semana de seu aniversário, em que ela viajou sozinha justamente para não comemorar, para não ver ninguém.
Ainda assim, sente-se compelida a participar da festa que lhe é alheia, de se misturar com aquele povo simples. Começa a caminhar lentamente por entre as barracas, meio zonza em meio ao burburinho de gente. Ao fim da curva onde foram erguidas as barraquinhas, avista a ladeira que vai dar na igreja, também toda iluminada. Decide ir até lá em cima.
Começa a subir a ladeira, pavimentada com pedras lascadas, irregulares, o que torna a caminhada difícil. Está ofegante. Sente-se de repente muito cansada, sem entender por quê. Quando chega no alto da colina, seu coração bate como louco, na garganta. Passa a mão pela testa, seus dedos estão trêmulos. Estranho, estava tão bem. É verdade, a decisão de passar o aniversário sozinha foi muito bem pensada, não tem do que se arrepender. Olha em torno. Há ali, junto à igreja, um largo forrado de grama, com pequenos bancos de pedra e um coreto no meio. Está cheio de gente, mas a mulher avista um lugar vago na ponta de um dos bancos. Vai até lá e se senta. Precisa descansar.
Fica quieta, respirando fundo, tentando se recompor. Sem querer, começa a ouvir retalhos das conversas das pessoas que estão por ali. E é então que ouve alguém falar em Nossa Senhora de Santana. Então é isso. É claro. Sua avó queria que ela se chamasse Ana por ter nascido no dia da santa. Esta só pode ser a festa de Santana. Acaba de pensar essa frase - ou talvez a tivesse pronunciado em voz alta - quando vê, de pé à sua frente, a poucos passos, uma velha parada, olhando-a fixamente. Tem alguma coisa nas mãos. A mulher sente o coração bater como louco ante aquele olhar. A velha, sorrindo, dá uns passos em sua direção e lhe estende o objeto que tem nas mãos. É um colar de ossos. Um suor gelado brota da testa da mulher instantaneamente, enquanto ouve da velha uma estranha frase:
- Salúba, Nanã!
E então sente a vista escurecer.