Quando ela e o marido visitaram pela primeira vez o apartamento, ainda ocupado pelos antigos proprietários, a mulher viu logo o piano na sala principal. E acima dele, na parede, uma pintura a óleo mostrando uma senhora de porte majestoso, vestida de gala, com o cabelo em coque. Ficou olhando o retrato, presa de um estranho fascínio. O dono do apartamento então aproximou-se e contou-lhe que a mulher no retrato a óleo era sua mãe, morta havia muitos anos.
"O piano era dela", acrescentou.
Imediatamente a mulher imaginou aquela senhora dedilhando as teclas, acompanhando a si própria com sua voz de soprano, talvez para afastar a solidão, para não pensar no passado ou, quem sabe... E foi despertada do devaneio pelo marido, que a chamava para ir embora.
Acabaram comprando o apartamento. E, com ele, o piano, pois os antigos proprietários não podiam levá-lo. Mas um dia, poucos meses depois, o marido se abaixou junto ao pé do instrumento e ficou examinando o chão, com o cenho franzido. Depois, passou o dedo no assoalho e olhou para a mulher com olhos esgazeados: "Cupim!" disse. A mulher não quis acreditar, mas o marido insistiu. E deu início à guerra. Sempre muito zeloso de seus livros e estantes, concluiu que a permanência do piano na casa era uma ameaça. E depois de muita discussão foi afinal decidido que ele seria desterrado. O marido combinou tudo com a empregada: ia doá-lo a uma igreja.
No dia acertado, a mulher preferiu sair de casa, não quis nem ver os carregadores chegarem. Gostava do piano, embora fosse pequeno, de parede, sem nada de especial. Era curioso, porque nem ela nem o marido tocavam qualquer instrumento. Mas a mulher se afeiçoara a ele. E não conseguia deixar de pensar na senhora do retrato, a quem um dia o piano pertencera. Depois de passar algumas horas fazendo compras e apreciando vitrines, voltou para casa. Sentiu uma pontada no coração ao ver o espaço vazio junto à janela, a marca no chão. O marido explicou que o instrumento fora carregado para a garagem, mas que ainda estava lá, pois a caminhonete da igreja só viria no dia seguinte. E a mulher logo pensou na solidão dele, largado ali num canto, no meio dos carros. Mas deu de ombros. Não havia jeito. Procurou não pensar.
No dia seguinte, ao sair cedinho para o supermercado, estranhou o olhar do porteiro. Cumprimentou-a de um jeito arrevesado, parecia pálido. "O que foi, seu Antônio?" O porteiro se levantou e falou baixinho, olhando para os lados, desconfiado. "O piano, dona. Todo mundo ouviu. Não fui só eu. Ele tocou durante a noite. Fui lá na garagem espiar e não tinha ninguém".
E ao ouvir aquilo a mulher deu uma gargalhada de triunfo, saindo da portaria a passos largos, vitoriosos, enquanto gritava "Bem-feito!"
Seu Antônio não entendeu nada.