Vemos seu acervo secreto, aquele que permanece guardado, longe dos olhos do público
As mãos, envoltas em luvas brancas como as de um prestidigitador, abrem o armário de par em par. E o segredo nele contido se revela: taças, copos, compoteiras, travessas, doceiras - tudo em cristal Baccarat. As peças cintilam, como se estranhassem estar expostas à luz. Vivem trancadas ali, naquele armário secreto. Estremeço ao ver que as mãos enluvadas, ágeis, retiram de uma das prateleiras uma pequena taça, de cristal esverdeado, dando-lhe um piparote na borda. O som musical fica ressoando no silêncio da sala. Meu coração se contrai quando imagino o que seria se uma daquelas preciosidades se quebrasse.
Mas continuamos nossa visita. Agora, as mãos enluvadas abrem outro armário, este de louças da Companhia das Índias. Retiram um dos pratos e eu volto a sentir aquele arrepio quando elas manuseiam a peça, exibindo-lhe os detalhes. E a emoção se repete, a cada novo armário aberto. Depois das louças, vêm os leques, arrumados em pequenas gavetas, dois ou três em cada uma delas. E em seguida a indumentária. Nessa parte, de uma das gavetas abertas, as mãos enluvadas retiram um guarda-sol rendado, cujo cabo é todo incrustado de esmeraldas e pérolas. Reclino o rosto sobre ele, contendo a respiração, temendo talvez danificá-lo. Quando vamos a um museu, sempre vemos peças como essas de longe, atrás de cordas, vidros, nunca de tão perto. Isso é o que torna nossa visita tão especial.
Mas essa não é uma visita qualquer. Estamos no Museu Imperial de Petrópolis, mas o que vemos é seu acervo secreto, aquele que permanece guardado, longe dos olhos do público. Não só louças, cristais, roupas, mas também quadros, tapetes, mobílias. E ainda os livros raros da biblioteca, as fotografias e os documentos do arquivo histórico. Essa visita, que é feita uma vez por mês, se chama O museu que não se vê. Nela, o visitante é guiado pelos funcionários do museu através dos departamentos que são, digamos, a espinha dorsal da instituição, mas que normalmente ficam invisíveis. Ninguém imagina que apenas dez por cento do acervo de um museu costumam ficar expostos, enquanto os outros noventa por cento têm de ser guardados em câmaras climatizadas, com temperatura e umidade controladas, precisando ser constantemente limpos, cuidados, espanados por pessoas especialmente treinadas para isso. Uma trabalheira louca. Ninguém imagina o que é a recuperação de uma peça antiga até entrar na oficina de restauração e ver alguém de luvas (sempre as luvas) mexendo na madeira de uma moldura com um ferrinho de dentista. Sim, um ferrinho daqueles de ponta finíssima, em curva. É o que é necessário, tal a delicadeza do trabalho.
Mas, de toda a visita a esse museu invisível, nada me impressionou mais do que a dedicação das pessoas que trabalham lá. São tão poucas. Certamente vivem tão atarefadas. Mas nos olhos de todas elas vi um brilho especial, um cintilar como o dos cristais: o brilho da paixão pelo que fazem.